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terça-feira, 14 de outubro de 2014

Para: alguém.

Eu ainda não te conheço, moço. Talvez tenhamos nos cruzado alguma vez por aqui. Eu vivo pra lá e pra cá, mesmo. Talvez venhamos a nos conhecer só daqui a uns 15 anos. Apesar de que, pensando bem, eu espero que não demore tanto.

A vida tem andado complicada. Não ruim. Complicada, sabe? Como te disse, vivo de um lado para o outro, correndo pra conseguir fazer tudo o que preciso. Passo por tanta gente durante o dia. De verdade. Gente bonita, gente feia. Gente querida, gente chata. Gente com um brilho nos olhos, gente com o olhar esmaecido. Gente, gente, gente. Mas, poxa. Nenhuma dessas pessoas parece ser você.

Caso seja, se manifeste. Se bem que, assim como eu, você ainda deve estar me procurando. Todas essas pessoas passam por mim e eu fico na ânsia por te reconhecer nos olhos de alguma delas. Por sentir um solavanco na boca do estômago. Por sentir cócegas dentro de mim, causadas por essas travessas e agitadas borboletas.

Quando eu te conhecer, as coisas vão melhorar. A loucura vai encontrar uma casa pra repousar. A correria do dia vai ter pra onde voltar. Eu sempre concordo quando dizem que as melhores coisas do mundo não são coisas. Que bom que você não é uma coisa.

De você, meu querido, eu sinto saudades. Por você, meu bem, eu sinto vontades. É certo que ainda não te conheço, mas certeza maior não há: eu não preciso ter em minha mente as suas feições, se o meu coração já bate mais forte por tudo o que você vai me fazer sentir.

Espero que entenda as saudades antecipadas. Sentir isso por alguém que vai me fazer tão feliz é perfeitamente normal. Ou, ao menos, deveria ser. Não sei se você tem algum esclarecimento sobre a falta que sente de mim. Acho que as pessoas são todas bem diferentes, né? Aconteceu, por acaso – ou não –, de eu ser assim: tanto sentimento, ímpeto por contato e necessidade de você.

Hoje, no ônibus, meus olhares se cruzaram com os de alguém. Se foi com os seus, também deve ter sentido o que senti. Me avise, por favor. O silêncio será, por questão de lógica, uma resposta negativa – com a qual estou, infelizmente, tão acostumado.

Algum dia você aparece. E fica. Até que esse momento chegue, tenho pensado sobre escrever cartas em outras línguas.

Nunca se sabe, né?

Atenciosa e carinhosamente,

o outro alguém.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Do1s

A luz me cega por alguns instantes. O rapaz tenta me olhar, mas – como eu já sabia – não consegue. Desnorteado, dou alguns passos pra trás em busca de apoio. Coitado... acha que existe alguma superfície tangível por aqui. Ao mesmo tempo em que vejo, não sinto nada – e isso me deixa confuso. Vou caminhando até ele. A luz aumenta e preciso fechar os olhos. Que vontade de gargalhar. A coisa tá chegando mais perto. Passo, passo, passo. Ela parece estar flutuando. Passo, passo, passo. Quero correr, mas não consigo. Estou próxima e começo a me sentir ansiosa. Meus pés não me obedecem. Vou preenchê-lo. Não posso abrir os olhos. Quase posso tocá-lo. Sinto um calor enorme próximo ao rosto. Estendo a mão em direção à sua bochecha. Sinto que vou me queimar. Encosto em seu rosto. As palavras somem. Satisfação. Não queimo. Estou mudando. Me assusto. Me acalmo. Arrisco abrir os olhos. Continuo com minha mão em seu rosto. Luz, luz, luz, luz, luz. Que corajoso. Mas consigo permanecer de olhos abertos. Ele abriu os olhos. Não estou mais cegando. Já deve ter percebido que pode me encarar. Mesmo com essa luz absurda. Mesmo com a minha energia. O que é isso que me toca? Me sinto cada vez menos luz e mais humana. Parece uma mulher, mas é diferente, fluída. Não posso tirar minha mão de seu rosto. A mão segue em minha bochecha. Nunca havia sentido isso antes. Nunca havia sentido isso antes. Um instante. Uma eternidade.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

"Casa"

Quem sabe eu não devesse estar aqui.
Dépaysement. Sensação de não pertencer a algum lugar.

Vejo os sorrisos ao meu redor. Vejo mãos dadas e olhares de cumplicidade. Vejo as coisas acontecendo. E a sensação de não estar no lugar ao qual pertenço me corrói.

Posso sorrir. Posso contar piadas e gargalhar alto daquelas que ouço. Posso, inclusive, me divertir. Mas lá no fundo - nem tão lá assim - o sofrimento gélido e corrosivo parece estar sempre querendo se fazer notar. Sem descanso. Sem paz.

Falando assim, até parece algo insuportável. Mas não é. E talvez seja justamente isso a maior crueldade do tal sentimento. Se não fosse possível aguentá-lo, alguma coisa - obrigatoriamente - seria feita. Mas já que é algo que "apenas" martela o fundo da mente - e do coração -, instaura-se falsamente uma outro pensamento: "Posso viver com isso".

O que é ilusão, porque uma hora já não será mais possível aguentar.

Quem sabe eu não devesse estar aqui.

domingo, 22 de junho de 2014

Porque

Porque estou sozinho? Porque não consigo entender a situação? Porque preferiram outra programação do que aquela que me incluía? Porque as coisas são assim? E outra coisa: porque vivemos nos perguntando o porque das coisas? Seria porque estamos eternamente insatisfeitos? Ou porque simplesmente não aceitamos as coisas como elas são – ou deveriam ser?

Cada dia que passa é um dia a mais ou um dia a menos? Porque existe essa dúvida? Não seria ela recorrente da eterna e inerente incapacidade do ser humano de aceitar ser ‘simplesmente mais um’ em meio a tantos? Essa pergunta parece um tanto quanto negativa, mas será – será mesmo – que não é válida para questionamentos?

Talvez sim, porque adoramos um porque aqui e outro ali. Até que um porque é empilhado em cima de outro e aí temos infinitos “porque” perdidos – que refletem de forma absolutamente desorganizada as incontáveis dúvidas que insistem em nos assombrar.

Certa vez alguém disse que pessoas inteligentes tendem a ser mais negativas porque a atividade de pensar cria problemas que ainda não exatamente existem. Pois talvez, na verdade, isso não faça sentido. (E não se irrite com tantos talvez. Assim como o insistente porque, tudo é dúvida, incerteza e insatisfação).

Perdão. Retornemos ao ponto. Essa afirmação pode ser absolutamente errônea, porque “ser negativo” é, em variadas medidas que dependem de pessoa para pessoa, característica do ser humano. De todo ser humano. O porque disso? Simplesmente pelo fato de que todos queremos, sempre, saber o porque de cada pequena ou grande coisa feita, ouvida, percebida, lida, sentida, vista, ignorada. Vivida.

E cada porque o levará à uma resposta. E cada resposta o levará a outro porque. Até que as tão desejadas respostas – que em sua maioria são, na verdade, insatisfatórias – se esgotam. E cada porque fica sem par. E cada porque fica no ar. Em busca de, pelo menos, algum talvez. E aí, cá estamos nós: aspectos negativos que todos carregam consigo.

Antes de você sair em busca de mais respostas insatisfatórias, entenda: este texto não busca responder absolutamente nenhuma das suas perguntas. Pelo contrário, espera-se que, pelo menos, alguns outros “porque” surjam na sua mente e te façam correr atrás de “respostas”. Com aspas, mesmo.

Falando nisso, você pode tentar se enganar ou qualquer coisa do tipo, mas vai acabar percebendo que toda resposta é a mesma. Que toda resposta é um mascarado talvez.

Assim como, percebam neste texto, todo porque é exatamente igual.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Prólogo

Hoje eu almocei lendo.

Lendo os teus olhos focados no prato à frente. Nos teus olhos que, em momentos do tamanho da eternidade, cruzavam com os meus.

Hoje eu almocei lendo.

Lendo os teus lábios úmidos e inquietos, delicadamente engordurados por causa dos alimentos que levava do prato à boca e mastigava com certa displicência.

Hoje eu almocei lendo.

Lendo os movimentos dos teus braços, as idas e vindas do pescoço e os reposicionamentos constantes das pernas por baixo da mesa.

Até que o livro se fechou. Você levantou. Pegou suas coisas e me deixou procurando pelos próximos capítulos.

 (Hoje eu almocei lendo.

E percebi que você desempenha muito bem o papel de protagonista).

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Des-consciente (parte 3)

Um zunido estranho está me incomodando. Tão rápido quanto perdi a consciência – ou me perdi, não sei –, eu a recuperei. A escuridão que antes tomava conta de minha visão e parecia invadir meu ser agora não mais existe. Parece que estou deitado. Olho pro teto. Mas até algum tempo atrás eu não era apenas uma consciência sem forma?

Aparentemente, aquele flash não apenas me levou a outro lugar, mas também me devolveu o corpo ao qual eu estava acostumado durante todos esses meus anos de vida. Não sei como e muito menos o porquê de tudo isso. Aliás, eu não estou entendendo nada do que está acontecendo. Absolutamente nada. Só sei que consigo sentir meus pés, meus braços, minhas mãos e todos os outros membros. E consigo sentir, de fato, que estou deitado.

Acima de mim, apenas um teto muito alto e branco. Olho para os lados e só vejo branco. Paredes brancas. Chão branco.  Será que também estou branco?! Por sorte, não estou. E ao me olhar, percebo que estou nu. Olho ao redor, mas não há roupa alguma para vestir. Porém, como também não parece haver ninguém por perto, não me preocupo com isso.

Então, me sento. Este móvel onde estou parece uma daquelas camas de hospital – metálicas e com uma aparência etérea. Me espreguiço, como se estivesse acordando de uma longa e confortável noite de sono. Mas acredito que não tenha dormido – e, se dormi, não foi nem um pouco confortável.

Hora de colocar os pés no chão. E, surpresa!, ele não está gelado como eu havia pensado. É até bom saber que finalmente estou reconectado à Terra. Olho novamente ao meu redor e não vejo absolutamente nada. Apenas um longo e amplo corredor com teto, chão e paredes brancas. Pelo menos, penso eu, não estou numa sala trancado entre quatro paredes.

Decido seguir por aquele longo corredor. Ele parece bem comprido, tanto que não consigo enxergar seu fim, mas em algum ponto ele precisa terminar. E com esse pensamento em mente, começo a caminhar.

Desnudo e descalço, mas consciente, passo após passo vou pensando nas coisas que me aconteceram e nas possíveis razões de terem acontecido, mas nada faz sentido. Nada parece ser a resposta correta pra esse grande enigma em que me encontro. Penso em meus pais e no quanto devem estar preocupados comigo. Penso no meu relacionamento que estava começando a dar certo. Penso no meu trabalho – meu chefe deve estar puto comigo por ter faltado durante todo esse tempo!

Mas quanto tempo? Não faço ideia. Não consigo ter nenhuma noção de quanto tempo decorreu desde o momento em que abri meus olhos e estava naquela sala escura, com aquela coisa se mexendo e vindo na minha direção, até agora. Pode ter sido apenas algumas horas ou pode, o que me preocupa, ter sido mais do que semanas.

Continuo caminhando. Sinto que mais algumas horas já se passaram, mas nada mudou. O branco está absolutamente em todos os lugares, não importa para onde eu olhe. Nem sombras existem, já que a claridade é total. E isso é pior que a escuridão completa, acredite. 

Sem perder as esperanças, continuo corredor adentro, até que, ao meu lado direito, uma porta – que eu não havia visto até então – se abre. E eu saio de lá, igualmente nu. Sim. Eu. Outro eu. A única diferença entre nós dois é que ele parece estar muito bem situado naquele ambiente e está segurando uma bandeja prateada com aquelas tampas redondas e pomposas – enquanto eu, provavelmente, estou com a expressão perdida e sem nada em mãos.

Ao me ver, o Outro Eu sorri de uma forma que me deixa muito perturbado, como se soubesse de coisas que não sei e estivesse satisfeito com isso. Ele então segura a tampa da bandeja com a outra mão e a levanta, revelando o que traz consigo e oferecendo a mim.

Um telefone normal. Nada além de um telefone comum, que qualquer pessoa tem em casa. Casa. Será que ele – eu –  está me dando a oportunidade de ligar pra casa e tranquilizar meus pais? Não. Não parece ser isso. Sempre fui de levar em conta minha intuição e poucas vezes estive errado. A razão desse telefone estar sendo oferecido a mim é outra.

Me ocorre de perguntar algo ao meu outro eu, mas de alguma forma sei que ele não será útil. Pode parecer imbecil da minha parte, visto que ele saiu de uma porta com algo para mim e carrega no rosto uma expressão confiante. Mas... não.

Talvez a resposta esteja atrás daquela porta. Quando estou prestes a dar meu primeiro passo para invadi-la, o telefone toca. Eu olho para o Outro Eu, e ele apenas me olha de volta. Percebo que a ligação é pra mim. Pego o telefone, coloco-o sobre o ouvido.

E digo: “Alô?”

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Des-consciente (parte 2)

Me sinto preenchido. Preenchido de uma forma estranha e diferente, como eu jamais havia sentido antes. Nada parecido com um orgasmo. Ou com aquele tapa na cara de alguém que te irrita demais. É algo muito além disso tudo.

Mas, ao mesmo tempo, é estranho. No momento em que essa coisa – que eu continuo sem saber o que exatamente é – retorna a mim, a sala escura torna-se mais clara. Lenta e gradualmente, como uma gota quando toca a superfície de um lago calmo. E eu sou essa gota. A partir de mim, a sala começa a ser invadida por uma luz amarelada e quente.

Mas eu continuo com muito frio, e me sinto deslocado dessa sala. Ah, sim, agora consigo ver onde me encontro, e não é nada além da minha sala de estar. Até a televisão estragada, que empoeirava em cima de um móvel antigo, estava ligada.

Mas... ela está funcionando corretamente. Sintonizada em algum canal passando imagens aleatórias de um homem jovem e sorridente, cuja fisionomia não me é estranha. Parece meu pai. Acho que... não. Não pode ser. Sou eu. Mas não lembro de ter vivido as coisas que estão passando naquela velha televisão. Não lembro de ter surfado com um filho – que sequer existe. Não lembro de ter casado num belo campo e, mais assustador, com uma bela mulher – que sequer conheço. 

Mas está tudo acontecendo. Ou melhor. Tudo aconteceu e foi gravado, tanto é que estou assistindo à minha própria vida. Será que perdi a memória? Mas então o que estou fazendo aqui? Não, acho que não foi isso. Essas coisas não foram vividas por mim, mesmo que essa televisão velha da minha mãe tente me desmentir. Eu sinto que não vivi. Sinto que ela está tentando me dizer alguma coisa com essas cenas todas.

Mas eu (ainda) não sei de nada. De repente, a televisão desliga. E, com ela, as outras luzes da sala. Sinto mais frio ainda. E me dou conta novamente de que meu corpo não está como sempre foi. Na verdade, com a súbita escuridão que domina aquela sala antes iluminada, me sinto como uma sombra – sem forma, mas pensante.

Mas. Mas. Mas. Mas. Mas. São tantos ‘mas’ que não sei mais o que pensar. Minha vida não-vivida, mas gravada. Minha atual existência aparentemente incorpórea, mas consciente. Essa ‘coisa’ que está em mim, mas não sei o que é.

Ainda parado naquele ambiente totalmente escuro, sem ter para onde olhar ou mesmo como me mexer, eu espero. Espero por alguns minutos, que logo se transformam em horas, que logo se transformam em dias. Ou será que não passou tempo algum? Difícil dizer. Impossível, na verdade.

Até que um flash ilumina aquela sala. Um flash súbito e cegante, com menos de um segundo de duração. Consegui vislumbrar apenas paredes muito brancas e aparentemente sem fim. Antes de conseguir digerir essa informação, um barulho agudo e ensurdecedor racha meu crânio, mesmo que eu aparentemente não tenha um. E o que resta de mim perde a consciência. E, se eu sou apenas consciência, me perco. 

terça-feira, 30 de julho de 2013

Des-consciente (parte 1)

Abro os olhos. Não enxergo nada. Fico em dúvida se estão realmente abertos. Mas... eles estão – percebo isso porque a escuridão desaparece lentamente e meus olhos agora conseguem discernir formas difusas à frente.

Estranho. Alguma coisa parece estar se mexendo. E mais estranho ainda: parece estar vindo na minha direção. Não sei se estou sentado ou em pé. Nem mesmo sei se meus pés estão no chão. Se eu tenho pés. A sensação que tenho é a de ser apenas uma consciência sem forma parada no meio daquela confusa sala escura.

Aliás, confuso estou eu. Não me restam dúvidas de que algo se aproxima. Mas eu simplesmente não faço ideia do que possa ser. Penso em me mover, mas realmente apenas ‘penso’, porque nada acontece quando tento transferir este comando para minhas pernas. (Pernas?)

A escuridão é quase total. E a ‘coisa’ – cujos contornos são difusos – está muito próxima. Se eu esticasse meu braço, poderia tocá-la. O problema é: não consigo fazer isso. E o curioso é que mesmo tão perto não consigo ter ideia do que seja. E então...

Ela me toca. Não. Ela me preenche. Não. Ela entra em mim. Não. Ela se torna eu. Não. Eu me torno ela. Não. Nós apenas nos reencontramos.

Sim.

domingo, 5 de maio de 2013

Tumulto

No centro daquela movimentada cidade, todos que passavam tinham pelo menos uma coisa em comum: a pressa. Passos ligeiros, pensamentos distantes e olhos desfocados faziam das pessoas não mais do que robôs tentando chegar aos seus objetivos – sejam eles o trabalho, escola, faculdade ou qualquer outro tipo de compromisso. No meio desse emaranhado de gente tentando caminhar na apinhada e suja calçada, um menino franzino tentava a sorte. – Moço, o senhor pode me ajudar? – A criança sorriu, tímida. Seus olhos possuíam uma luz fraca, do tipo que já cansou de brilhar devido às peças pregadas pela vida.

– Ah, tô sem nada de dinheiro aqui, rapaz.  – Disse o apressado homem, que já há algum tempo não parava para apreciar o mundo e as maravilhas que acontecem nele a todo momento.

– Oi? Mas... eu não quero dinheiro! – E seu sorriso vacilou. Era isso que todos diziam antes de sumirem no mar de gente novamente. Mas, dessa vez, o garoto estava decidido a ter o que tanto queria. Correu atrás do homem, cutucando-o nas costas. Ele se virou, e dessa vez parecia irritado.

– Onde tá sua mãe, hein? Ela deveria estar trabalhando em vez de te fazer pedir esmola aqui no centro!

– Eu não quero o seu dinheiro, moço. Tenho o que comer, apesar de não ser muito e nem de longe se parecer com aquilo que você come. – E, de uma vez por todas, percebendo que o homem parecia curioso, o menino pediu. – O que eu quero, de verdade, é um abraço apertado. Minha mãe trabalha todo dia pra poder nos sustentar, e não sobra tempo pra... essas coisas. E eu sinto falta.

E antes que pudesse continuar falando, o antes apressado homem, vestido com uma camisa social e calça jeans de uma marca cara, abaixou-se e envolveu o garoto com seus braços. Sentira uma imensa sinceridade saindo daquela boca, assim como uma carência por afeto muito maior do que seria aconselhável.

O garoto não precisou falar mais nada. Aquele abraço era tudo que precisava. E exatamente da maneira que precisava. Depois de alguns instantes nesse ato que pareceu eterno, o garoto pensou que seria educado agradecer. Mas, antes que pudesse, as pessoas começaram a empurrar de todos os lados, e o homem e o rapaz foram separados. Cada um pro seu lado.

Um, completamente extasiado com a experiência. Primeira vez em muito tempo que percebeu as coisas ao seu redor, que deu atenção à algo que não sua falta de tempo ou colegas de trabalho. Ao abraçar o garoto, sentiu que um grande peso saia de seus ombros e uma enorme sombra desabrigava-se de sua visão. Sentia-se vivo novamente. Orgânico. Capaz de sentir e transmitir emoções.

O outro obtivera tudo que queria. Um grande e sincero abraço que dispensou qualquer palavra subsequente, pois a emoção alojara-se toda no espaço existente entre os braços entrelaçados: o peito. O coração. O garoto não sentia mais fome de carinho. Podia ir pra casa feliz e satisfeito. Tinha uma sensação esquisita também: que, de alguma forma, ajudara o homem. Libertara-o de si mesmo, das amarras que ele mesmo havia construído.

E isso deixava todo mundo mais feliz. Naquela cidade que nunca para, que tá sempre atrasada e que sequer tem tempo pra manifestações de carinho, a esperança havia sido novamente acesa.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Salto alto

Gargalhadas. Não conseguia parar. Assistir àquele espetáculo era algo que realmente me prendia. 

Fui caminhando até onde estava aquele 'pobre homem'. Caído. Meio torto. Amontoado no chão imundo.

Percebi que ainda segurava o isqueiro em minha mão esquerda. Larguei-o no chão, causando um baque surdo que ecoou naquele ambiente úmido e assustador. O homem se mexeu alguns centímetros. Meu pai. Sofrendo. 

Coloquei o salto do meu belo scarpin sobre sua mão espalmada. Apertei. Conforme pressionava com mais força, seu grito de dor ia surgindo. Tirei meu outro pé do chão, colocando todo meu peso no salto do sapato que continuava firme na palma de meu pai, enquanto mantinha o equilíbrio apoiando minha mão na parede.

Ouvi o barulho de algo rasgando ao mesmo tempo em que sentia meu salto afundando em sua mão, tocando o chão repentinamente.

Um urro de dor emergiu de sua garganta durante estes segundos, e eu tirei meu pé dali, abaixando-me um pouco para poder ver o que tinha feito.

Havia um rombo e muito sangue. Ops. Acho que furei sua mão.

sábado, 19 de novembro de 2011

Perdido

Corro sem destino, busco pela luz. Ela foge de mim, e o que me acompanha são as sombras. 

Sombras que sussurram em meu ouvido coisas que não quero ouvir, que me fazem duvidar da possibilidade de achar a luz. A tal luz que me fará sorrir e acabará com meus pesadelos. 

Tropeço uma, duas, três vezes. Não desisto. Perco a direção e me afasto do suposto caminho cuja intuição era minha guia. Não faz diferença. Estou tão embrenhado na escuridão que a única coisa que faço, sem perceber, é andar em círculos. 

As sombras não mais sussurram: elas gritam. Me ensurdecem.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Você pode pagar por um par de tênis, por um ingresso para assistir ao novo filme de Hollywood e por um telefone celular recém lançado. Sim, você pode, e o mundo diz que você deve fazer isso. Senão, obviamente, você não é tão bom quanto o seu colega. 

Você pode pagar por vastas e inúmeras coisas, mas nunca poderá ter através do pagamento algo que não custa nada - mas vale muito mais do que qualquer quantia. Momentos. Momentos que serão difíceis de esquecer, como ganhar uma corrida e sentir aquela sensação de triunfo indescritível; assistir a um filme romântico ao lado daquela pessoa que faz você sentir especial; ou então, quem sabe, falar durante horas com seu pai, que está longe e você não o vê há vários meses.

Você pode pagar pelos objetos, mas não pelas situações. Pode, pode sim. Mas também pode usufruir de seus amores e temores sem precisar comprar tanto, sem precisar aderir dessa maneira tão selvagem ao capitalismo, que mais destroi do que constroi. É fato que alguns momentos derivam de objetos, de 'coisas' compradas, porém são consequências livres, apenas. A sua felicidade, sua plenitude, não depende do que você tem, mas do que você é constituído emocional e eticamente.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Danço

No palco eu me liberto. Aqueles poucos minutos onde tudo é possível, onde faço de meu corpo o instrumento catalisador da mais pura arte. Sou movimento, música, sentimento. Sou arte. Em minhas veias corre o sangue, a adrenalina. Porém muito mais que isso, corre energia. Aquela energia que me faz percorrer o palco muito mais do que executando movimentos, mas explicitando idéias e jorrando sentimentos para todos que assistem, emocionando, tocando-os.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Descobrindo-se

Lúcia era seu nome. E era melhor não conhecê-la. Claro que, em sã consciência, as pessoas tendem a manter distância. Ela é má. Aliás, má são as pessoas normais. Lúcia é cruel. E ama isso. O engraçado é que seus pais a criaram como criaram a irmã - uma mulher íntegra, dois anos mais mais velha, já casada e muito amorosa.

Ela percebeu com o tempo, depois de uma certa experiência, que adorava ver os outros sofrerem. Isso lhe dava prazer, lhe saciava - como nenhum homem havia conseguido.

O dito ocorrido sucedeu-se num sábado. Mariana, a irmã de Lúcia, precisou ir com o marido a um workshop sobre vendas - que era o seu ramo -, e não tinha ninguém para ficar com seu filho, um menino de oito anos. Pediu a Lúcia, pesarosa, que aceitou após alguma insistência. Tudo aconteceu muito 'naturalmente'.

Lúcia chegou de noite na casa de sua irmã. Uma casa bonita, arrumada e razoavelmente chique. Trouxera sua pequena mala com uma muda de roupa e seus itens de higiene, para passar a noite. Não se preocupara com nada para divertir o garoto - ele devia ter ali o suficiente. Chegou na porta, apertou a campainha. Esperou. Alguns segundos depois, a porta se abriu, e sua irmã apareceu, vestida elegantemente.

Mariana era muito parecida com Lúcia, ao mesmo tempo que tão diferente. Era bonita - porém não tanto quanto a mais jovem -, mas seu traço mais marcante também era o olhar: o de Lúcia era frio, astuto e cruel, e o de Mariana era cálido, amoroso e preocupado. E isso fazia toda a diferença.

- Entra, Lú. - Disse Mariana, abrindo caminho para sua irmã passar.  - Muito obrigada por vir, não tínhamos com quem deixar o Vicente! - Exclamou, dando um abraço em sua irmã e mirando-a de cima a baixo. - Você está bem? Espero que sim, sabe que pode falar comigo sobre o que for. - Falou ela, empurrando cordialmente Lúcia casa adentro.

A vontade que Lúcia tinha era de dizer "Sou frígida", porém resistiu a esse impulso e apenas deu um pequeno sorriso, murmurando algo como "Bem, bem". Elas foram andando pela casa até onde se encontrava o resto da família: o marido de Mariana, um homem alto, bonito e com os cabelos começando a perder a cor, e um menino pequeno para seus oito anos, loiro e bonito.

Quando as irmãs entraram na sala, o pai se levantou, indo na direção das duas, mas o menino sequer olhou, concentrado em seu video game. Quando viu isso, o pai deu uma pequena tossida e o garoto se virou. Entediado, levantou e caminhou junto com seu pai. Primeiro o marido de sua irmã a cumprimentou, com um beijo em cada bochecha, respeitoso. Depois o garoto a puxou para  que conseguisse alcançar sua bochecha, e beijou-a também, sem interesse. Ela deu um sorriso e murmurou um "oi" para ambos. Uma chama se acendeu em seu peito, desconhecida.

O casal conversou - ou tentou manter uma conversa - com Lúcia. Perguntaram sobre estabelecer família, amores, amizades, profissão… Ela apenas respondia automaticamente, sem prestar real atenção. Achava aquilo tudo um saco, um suplício. Queria que eles fossem logo e a deixassem em paz com o menino - que não fazia nada além de apertar aqueles botões do joystick.

Lúcia analisava o garoto quando Mariana e o marido vieram comunicar que precisavam ir. Deram beijos no filho e lhe pediram educação e, como sempre, disseram o clichê "seja um bom garoto".  Foram se despedir de Lúcia, então. Lhe recomendaram ter paciência com o menino e calma. Disseram-lhe o horário de dormir e o que dar para comer. Ela escutou com atenção essa parte - não queria um menino chato chorando por qualquer coisa que ela tenha deixado escapar.

- Então é isso, Lúcia! O Vicente deve dormir às dez e meia! E antes disso tomar um leite com chocolate. Não esquece de fazer ele esco… - Falava Mariana sem parar, parecendo meio preocupado e aflita. Ela e o marido estavam no carro já, dando ré da garagem.

- A Lúcia entendeu, amor. Você disse isso três vezes, já! - Riu-se o marido, olhando para Lúcia e revirando os olhos, divertido. - Ela vai saber o que fazer, não vai, Lúcia? - Perguntou sorrindo o homem, com o carro ligado e começando a andar, devagar.

- Claro que sim. Viajem tranqüilos. - Lúcia sorriu. Uma sombra - ainda - de seu sorriso cruel. Estava na soleira da porta. - Nos vemos amanhã. Vicente e eu vamos nos divertir, vocês vão ver. - Gritou.

O carro foi se distanciando, ao mesmo tempo em que o sol ia sumindo no horizonte. Lúcia fechou a porta com um baque e chaveou-a. Guardou as chaves no bolso e rumou para a sala, onde se encontrava Vicente. Ela sentou no sofá ao lado dele e sorriu.

- Então, querido. Já sei o que podemos fazer. - Ela disse, calmamente, virada para ele.

- Ah!  Eu quero jogar video game! Estou quase passando esse nível! - O garoto falou, concentrado, sem tirar os olhos da tela.

- Não vai dar, Vicente. Desculpa. - Falando isso, ela caminhou até a tv e desligou-a. Olhou para o garoto, que parecia bravo e prestes a chorar. - Se acalma, o que vamos fazer será bem mais divertido. - Ela disse, com aquele brilho frio cintilando em seu olhar. - Pelo menos pra mim. - Murmurou.

Arte e destino

Até quase minha fase adulta, eu nunca tinha sido feliz. Nem sabia o que era a felicidade. Parece estranho, não é? Não se conhecesse minha vida. Eu fui criado pela minha avó, que sempre me amou mas nunca soube, digamos, pôr isso em prática. Eu sei que ela sempre quis o melhor pra mim e tal, mas não sabia mais como lidar com uma criança. Uma criança órfã. Meus pais morreram quando eu tinha dois meses, em um acidente de barco, afogados. Eu nem lembro deles, os vi apenas por fotografias. Minha avó teve que ser cuidada por uma filha, irmã da minha mãe, por um tempo. Isso porque, logo após o acidente, ela não queria mais comer, tomar banho ou sair de casa. Muito menos cuidar de um bebê chorão, faminto e barulhento. Foi até aí que ela me contou. Eu só sei que continuou comigo e voltou a viver normalmente - ou o mais normal que sua realidade permitia. Cuidava de mim, me levava a escola, me buscava. Comparecia à reuniões e fazia tudo que tinha de ser feito. Mas não era minha mãe. Ela sabia disso, e eu também. Isso fazia diferença. Eu cresci sendo o "Filho da Avó" e sem receber muito amor, com apenas o necessário. O garoto das roupas engomadas, velhas. Mas não reclamo, sempre tive o que precisei. Quando cheguei na adolescência, meus objetivos eram simples e claros: sair da casa da minha avó e ser totalmente independente. Consegui isso com 17 anos, após ter ganho um concurso de arte. Ah, é. Sabia que tinha esquecido de alguma coisa. Eu desenho. Desde meus 6 anos, o papel e os lápis de cor são meus melhores amigos. Nada me deixa mais satisfeito do que rabiscar durante horas e ver o resultado - mesmo que não me agrade. Não me pergunte se isso é dom ou habilidade adquirida, eu não sei responder. O que eu sei é que a arte - o desenho, a pintura - faz parte de mim, está entranhada em meu ser, na minha essência. Talvez os jurados - ou seja lá o nome que têm as pessoas que analisaram os desenhos e escolheram o meu como o melhor são chamadas - tenham visto isso. A arte, a emoção, impregnadas no meu trabalho. Não apenas rabiscos precisos e bem definidos formando uma figura. Enfim, o fato é que me chamaram. Eu ganhei. E com dificuldade consegui o consentimento de minha avó - que já estava bem idosa -, para ir à capital e começar a estudar arte no mais prestigiado centro de arte do país. Sem pagar absolutamente nada, com todas as despesas pagas. De início, me senti muito deslocado naquele lugar. Pessoas ricas compartilhando suas experiências pela Europa, falando sobre o carro novo do pai, o seu carro novo. Estava prestes a voltar para o interior, de volta com minha avó, que se encontrava bem debilitada e vivia agora com a tia que anteriormente tinha cuidado dela.  Teria feito isso, não fosse pelo amizade que acabou florescendo entre mim e outro garoto da minha idade que também se sentia deslocado. Não por questões econômicas, longe disso. Ele era até mas rico que o resto dos nossos colegas. Mas se sentia tão desconfortável com tanto dinheiro e pressão vindos de seu pai, que o que mais queria era ser como eu. Nós nos entendemos muito bem, e viramos melhores amigos. Seguimos juntos na faculdade de Artes até o fim, um dando suporte ao outro, até que nossos caminhos se separaram. Ele foi trabalhar na área de design e comunicação visual da empresa de seu pai. E eu… bom, mais uma vez o destino me presenteou. Fui chamado, depois de um estágio, para trabalhar em Paris. A proposta era: Pintar quadros, ilustrar livros e ganhar muito dinheiro com isso. Eu aceitei. Dei adeus à minha vida aqui, à minha avó, ao meu tão querido amigo, e parti. Hoje tenho cinqüenta anos e sou dono do meu estúdio de arte aqui, em Paris. Sou satisfeito pessoal e profissionalmente. Eu agradeço muito a minha avó - que não mais está entre nós -, por ter feito o que fez e formado quem eu sou, e ao meu querido amigo, que atualmente é dono da empresa que anteriormente pertencera à seu pai, por ter me ajudado nos momentos tensos e enfrentado comigo algumas das peripécias da vida. E digo, com toda certeza, que tudo valeu a pena.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Você merece

- Eu te avisei, não avisei? Você que não me deu ouvidos. - Disse a mulher, morena e esguia, com um meio sorriso no rosto. Visivelmente se divertindo com a situação.

Estavam em um aposento mal iluminado, úmido e sujo. A mulher estava em pé, olhando de cima para o homem. Ele tremia, querendo encará-la mas com medo do que veria em seu olhar.  Estava ajoelhado, caído naquela imundície. Criou coragem e levantou a cabeça, mirando aqueles zombeteiros olhos castanhos.

- O que quer de mim? Já disse que aquilo que aconteceu foi sem querer! Eu não tive a intenção! - Gritou, exausto, o homem. Não sabia mais o que fazer. Logo preferiria a morte a ter que aguentar mais daquele suplício.

Para sua surpresa, a mulher sorriu. Deu uma olhada para ele, de cima a baixo, encarando-o nos olhos, como se o desafiasse, e logo virou-se de costas e começou a caminhar em direção ao fundo do lugar, ocultando-se nas sombras. O homem desviou o olhar daquela escuridão, incomodado, mas logo os olhos se tornaram secundários. Os ouvidos é que foram invadidos com uma risada fria e longa, sem vida, mas que transparecia toda a diversão e satisfação que a mulher estava sentindo ali.

Ela parou de rir. Com seu sorriso satisfeito se espalhando mais uma vez pelo rosto, foi na direção do homem que, diga-se de passagem, estava preso à parede por uma algema ligada à uma grade com barras de ferro logo atrás. Caminhando devagar e muito tranqüilamente, ela passou por uma janela que a iluminou com a luz amarelada da rua, e foi possível enxergar claramente seu rosto.

Ela poderia ser descrita como 'linda'; caberia perfeitamente um 'estonteante' em sua descrição. Caberia. Futuro imperfeito. Seu rosto, sua movimentação - ela, por inteiro -, transmitiam uma frieza absoluta, um desprezo no olhar. Facilmente perceptível o quão cruel era aquela mulher.

O homem se mexeu desconfortável, sentindo-se assustado e totalmente vulnerável. A mulher estava muito próxima, e segurava alguma coisa. Com um suspiro, ela se abaixou, ficando com os olhos na altura dos dele. Passou a mão esquerda no rosto daquele indefeso, angelicalmente maligna - malignamente angelical. O homem sacudiu a cabeça para que ela parasse. A mulher, então, tornou-se séria. O sorriso cruel desapareceu, permanecendo apenas a crueldade simples e bruta.

- Vamos brincar um pouquinho. - Sussurrou ela, mordendo o lábio inferior. Estava ansiosa para começar.

- Do que você tá falando? Já não me torturou o suficiente aqui sem comida e água, preso nesse lugar imundo?! - Gritou o coitado, quase sem forças para mais nada além de objetar: estava faminto, sedento, exausto e preocupado com sua família. Vislumbrou rapidamente o rostinho de sua filha mais nova chorando, e então retornou a realidade vendo-a com algo na mão direita. Algo com aspecto pontiagudo e perigoso. Ficou trêmulo.

- Tortura? Que horror!  - disse ela, num tom falsamente ultrajado. - Ninguém vai te torturar aqui. Vamos apenas nos divertir um pouco. - Ela falou, com o característico sorriso reaparecendo em seu belo - e maligno - rosto.

Ela levantou devagar a mão direita e, como quem mostra um objeto recém comprado, girou na mão um alicate. Grande e possivelmente letal nas mãos erradas. O homem tentava se controlar, mas com essa nova visão e a perspectiva do que poderia ser feito com a ferramenta, voltou a tremer e a suar frio. Com grande esforço, conseguiu falar sem gaguejar.

- Vai me matar, é? Faça isso logo, então! Só me poupe dessa tortura! - Gritou ele, despejando seu pânico todo de uma vez e fazendo a mulher dar uma gargalhada típica de quem está se divertindo muito.

- Não, papai. Não vou te matar. Você vai preferir a morte, sim, mas isso acontecerá por conta própria. Você sabe… os seres humanos precisam de água e comida. - Disse ela, olhando para o alicate como quem analisa um troféu recém ganho. A mulher ergueu os olhos para ele e falou claramente. - Vamos começar logo, estou ansiosa.

- O que você vai fazer comigo…? - Murmurou o homem, sem conseguir se conter e gaguejando nas últimas palavras e deixando a frase morrer.

- Lembra de como eu gostava de brincar de manicure? - perguntou ela, calmamente. - Então,  eu andei treinando. Quero te mostrar como melhorei. - Seu rosto estava se tornando mais - se é que isso era possível - cruel, e ela olhava séria para seu pai, perfurando-o com os olhos. - Brinca comigo, papai.

Antes que ele conseguisse pensar em uma maneira para reagir ou algo para dizer, a bela e maligna mulher - sua filha - puxou sua mão direita para si.

- O que… - Ele começou a dizer. Não terminou.

A dor que sentiu ultrapassou todas que já tinha sentido. Ele não existia, nada existia. Apenas a dor. A dor que subia pelos seu dedos e penetrava em seu corpo. Não saberia dizer, posteriormente, se gritou ou não. Se chorou, tremeu, se contorceu ou apenas ficou em estado de choque, parado. Não saberia, também, precisar quanto tempo durou o suplício, se apenas um minuto ou a eternidade. Ele estava perdendo a consciência. Queria morrer, apenas isso. Qualquer coisa menos a dor. Ela o estava sugando para a escuridão, para o negrume total. Ou a escuridão estava preenchendo-o. Então, ele perdeu a consciência.

- Acorda. - Disse uma voz feminina, aguda e fria. Era a mulher. A cruel, a maligna.  Quando ele abriu os olhos, ela sorriu de satisfação. - Ora, ora, papai. Dê uma olhadinha nas suas mãos. O que achou do meu trabalho?

Então, ele baixou os olhos, confuso, atordoado pela dor. Ali na sua frente estavam seus dedos. Mas agora ele entendia o porquê de tanta dor: sua amada filha tinha removido todas suas unhas com o alicate, sem deixar nenhum resquício. Apenas dor, sangue, carne e pele. Os dedos estavam inchados, feios, irreconhecíveis. O homem queria dar um grito de nojo, dor e medo, mas não conseguiu. Ficou em silêncio observando seus horríveis dedos.

Logo, a mulher se levantou. Ele viu quando chutou e pisoteou suas unhas no chão, avermelhadas e mortas. Não conseguia acreditar que a menina que criou com tanto amor, dedicação e esforço se tornara o monstro que agora torturava o próprio pai. Como se transbordasse, ele engasgou. Precisava falar isso pra ela, mas não conseguia!

Então, antes que pudesse organizar seu pensamento e formular a frase, ela falou, calma e satisfeita.

- Como fui, papai? Acha que melhorei meus dotes de manicure? - Falou ela, obviamente sentindo-se muito bem.

- Como você… - Ele não conseguiu continuar, gaguejou. Logo sua raiva sobrepujou sua incredulidade. - Sua monstra! - ele degritou. Arfava com um velho, mesmo não sendo. O cansaço e o esgotamento - físico e mental - o dominavam, e ele não sabia o que aconteceria a seguir.

- Monstra? Papai, não foi assim que o senhor me ensinou a tratar as pessoas. - Respondeu ela, como se estivesse assustada com a reação do pai. - Agora, convenhamos. Você mereceu essa brincadeirinha.

- Mereci? Não! Eu já disse que aquilo tudo foi um mal entendido. Sem querer! - Gritou ele, quase histérico.

- Sem querer? Pois eu não acredito! Você vai se arrepender bastante do que fez, papai. Vai ser bom. Só é uma pena que não vá sair daqui. - Divertiu-se ela, passando a mão pelos longos cabelos negros.

A mulher se virou ágil e rapidamente, de costas para seu pai, e foi novamente para  o canto escuro do aposento, onde, supôs o homem, tivesse um armário ou algo do tipo. Ela cantarolava alguma música lenta enquanto, aparentemente, procurava por algo. Então, após uma interjeição de satisfação, o homem ouviu o barulho de uma cadeira arrastando e ela se levantou. Caminhou até ele, ainda cantarolando.

- Encontrei, papai. Meu isqueiro. - Murmurou a mulher, abrindo o pequeno objeto. Se abaixou novamente e acendeu-o. A chama tremulante iluminou fantasmagoricamente seu rosto e refletiu em seus olhos, sem diminuir a frieza de seu olhar. Ela tornou a sorrir novamente. - Vamos esquentar as coisas?

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

(Não) por amor

A única coisa que eu queria era ter mamãe só pra mim. Desde que papai morreu, ela tem sido minha. Dormíamos juntos, acordávamos juntos. Sentia seu amor, sentia que era o único de sua vida. Sofremos muito mas, pensando bem, a morte do papai não foi de todo mal... Estavamos mais unidos que nunca, e eu a amava tanto que não consigo nem explicar. Me imaginar sem ela era inadmissível, não existia essa possibilidade. E, com minha ajuda, ela se reergueu. Superou a perda, algo que eu já tinha conseguido.

Até que entrou Eduardo na história. Imagine o pior homem que sua mente consiga idealizar, agora multiplique por mil. Assim era ele. E, aos poucos, conseguiu atrair a atenção dela. Eu o detestava com todas as minhas forças. Que direito achava que tinha de tirar minha mãe de mim? Isso já é revoltante, mas minha mãe também havia me decepcionado. Ela me pôs de lado pra ficar só com ele, chegando até a me deixar com a tia da casa ao lado pra sair com ele. Absurdo. Eu não podia deixar isso acontecer por mais tempo... e tomei uma decisão.

Na segunda vez que minha mãe - a MINHA mamãe - quis me deixar na vizinha pra sair com o Eduardo, eu já tinha tudo arquitetado. Na gaveta tinha uma faca daquelas bem grandes, e eu a peguei. Estava sentado no tapete da sala brincando quando a campanhia tocou. Mamãe foi em direção à porta, mas eu sorri pra ela e indiquei que ia abrir a porta pro Eduardo. Fui lá, abri a porta. A faca na mão esquerda, bem escondida nas costas.

"Oi, Fernando." Disse ele, com seu sorriso dissimulado no rosto. Eu respondi, fechando a porta, com toda calma do mundo: "Meu nome é Felipe, você sempre erra." E, segurando firme a faca, perfurei sua barriga e peitoral. Uma, duas, três, quatro vezes antes da minha mãe perceber o que estava acontecendo. Deu um grito desesperado, e eu me virei pra ela, sem parar com os movimentos contra o corpo do Eduardo. Em choque, penso eu, mamãe começou a chorar e a tremer. Eu disse: "Já vai acabar", e logo a soleira da porta estava toda ensanguentada. Sangue sujo do ex-namorado de minha mãe. Quando terminei, me virei pra ela, sorrindo por ter resolvido esse problema em nossas vidas e com a perspectiva de vivermos bem unidos como antes.

Não foi como eu esperava. Ela gritou mais um pouco (isso estava cansando, eu pensei) e disse: "Você não é meu filho, é um monstro!". Acredite, foi pior do que uma facada. Não podia acreditar que ela estava dizendo isso. Será que não entendia que havia feito o melhor pra nós dois? Eu tremia. Estava sentindo uma raiva tão grande pela ingratidão dela e isso definitivamente não podia passar em vão. Ela tinha que sentir. Se me achava um monstro, um monstro ela iria ver. Eu corri com a faca sangrenta apontada direto para seu coração - porque eu sabia onde ficava ele - e com toda a minha cólera por sua reação, afundei o metal contra carne, contra músculos. Disse pra ela: "Eu apenas queria minha mãe inteira pra mim. Se você não quer, mamãe, é melhor não estarmos aqui, porque não adianta só eu querer." E ela caiu no chão, desmontando à minha frente, uma lágrima percorrendo a curva de sua bochecha. 

Com a faca pingando sangue em minha mão, eu olhei em volta. A porta inocentemente fechada, e o que antes poderia se chamar Eduardo caído na soleira da porta. Ele estava horrível, e eu achei graça. Duvido que mamãe se interessa por ele agora, cheio de furos pelo corpo, pensei. Olhei pro outro lado e a vi, estirada em um ângulo estranho no chão, o peito vazando sangue. Bem feito. Foi ela quem me ensinou a não ser ingrato, e minutos atrás havia cometido a maior ingratidão que poderia ser possível, apenas por ter salvado ela do falso que era Eduardo. 

Eu pensei muito, e decidi que não valia a pena me matar. Sabia que seria o mais óbvio a se fazer, mas tão clichê também... Lavei a faca na pia e a depositei na gaveta de novo, onde estava antes. Deixei os corpos ali no chão mesmo, sem me importar... Quem se importa com carcaça, com restos? Chaveei a porta da casa, tomando cuidado pra pisar nos dedos daquele corpo dilacerado que antes fora Eduardo. Voltei pra sala, liguei a televisão e dei um sorriso. Pela primeira vez no dia algo estava dando certo: o meu programa favorito estava começando. Me atirei no sofá e comecei a assistir... Estava quase dormindo ali mesmo quando vocês chegaram. Deve ter sido a tia Armena que chamou vocês, ela tem os ouvidos ligados, apesar da idade. 

Tá, cansei de falar. Pode me trazer um copo d'água, Sr. Delegado?

sábado, 11 de setembro de 2010

Destino

Maria estava grávida.
Grávida de um homem que não a amava. O que faria? O impulso inicial foi se suicidar. Depois, abortar o bebê. Aquela pobre alma que nenhuma culpa tinha. Ela pensou muito. Muito. E decidiu que teria a criança, que a deixaria ver a luz do sol e crescer. No início, manteve-se quieta, tentando levar sua vida normalmente. Só que isso não era mais possível, pois a barriga crescera e uma vida se formava dentro dela. Seus pais tinham que saber agora. Ela preferia contar a eles.
Foi horrível. Ambos não aceitaram. Gritaram. Choraram. Disseram que Maria não era a filha que criaram, aquela criança graciosa e inteligente. A mandaram embora. "Pegue suas coisas e suma daqui, para sempre" foi o que disseram. Ela obedeceu, desnorteada e com um rombo no coração. Na soleira da porta, olhou pra trás, como se esperando que seus pais a abrissem e dissessem "Era brincadeira, querida. Entre. Você sabe nos dizer se é menino ou menina?". Mas isso não aconteceu. Maria se desesperou. Lembrou de sua amiga, Fernanda. Ligou para ela, que assustou-se com tudo e veio buscá-la. Maria contou tudo, e Fernanda pareceu chocada e com pena.
Na casa de sua amiga, quem mais a ajudou e pareceu entender o que acontecia em sua bagunçada mente foi a mãe de Fernanda, Dona Lúcia. Era uma mulher inteligente, sincera, doce e firme, e acima de todos, foi quem ofereceu maior conforto e auxílio quando Maria precisou. Estava quase na hora. Quase na hora de dar a luz à menininha que esperava em seu ventre ansiosa para nascer. Fernanda fazia algumas coisas por ela, mas parecia com ciúmes e imatura em diversos aspectos. Uma amizade superficial. Maria se entristeceu ao perceber isso, mas recobrou forças ao lembrar de Dona Lúcia, uma viúva de fibra e coração.
A hora era chegada. A bolsa havia estourado. Dona Lúcia foi com Maria para o hospital, e permaneceu com ela até os momentos mais críticos. Momentos de dor, de aflição e preocupação. "Será que vou conseguir?", Maria pensava, e Dona Lúcia, parecendo ler sua mente, falava: "Você vai conseguir, minha querida, e vai lembrar desses momentos por toda sua vida". A menina nasceu. Uma garotinha loira e rechonchuda.
Dona Lúcia chorou muito, e disse à Maria que lembrava de si mesma quando deu a luz à Fernanda. Mãe de primeira viagem, nova, assustada, sozinha e inexperiente. A mais nova mãe chorou muito, e abraçou com todo seu amor sua filha. Ficou sem palavras para agradecer Dona Lúcia por tudo.
O médico perguntou qual era o nome da menina, e Maria, com todo orgulho e felicidade, respondeu: "Lúcia". É, certa vez disseram que as pessoas entram em nossa vida por acaso, mas que não por acaso elas permanecem...

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Paz

Aaaaah! Tanto barulho! Tantas vozes! Acho que estou ficando louco. Ou não. Realmente não sei. Gostaria tanto que esse barulho parasse. Me desse paz. Me sinto exausto, esgotado. E sei que só tem uma solução que vai definitivamente acabar com esse suplício. A morte. Você deve estar se perguntando se eu tenho medo. A resposta é não. Quando uma coisa vai te libertar, acabar com sua agonia, não tem porquê temer. É simples e rápido. Aliás, foi simples e rápido. Eu já morri.

Espero

É tão bom ter pelo que esperar
aquele momento que faz seu coração disparar.
corro pelo campo, sem nada querer além de você
alguém que sente o mesmo,  e não acha isso clichê.
Quero seu olhar, e na minha pele, o calor e o toque
que de tão bom, na minha pele parece um choque.