Quem sabe eu não devesse estar aqui.
Dépaysement. Sensação de não pertencer a algum lugar.
Vejo os sorrisos ao meu redor. Vejo mãos dadas e olhares de cumplicidade. Vejo as coisas acontecendo. E a sensação de não estar no lugar ao qual pertenço me corrói.
Posso sorrir. Posso contar piadas e gargalhar alto daquelas que ouço. Posso, inclusive, me divertir. Mas lá no fundo - nem tão lá assim - o sofrimento gélido e corrosivo parece estar sempre querendo se fazer notar. Sem descanso. Sem paz.
Falando assim, até parece algo insuportável. Mas não é. E talvez seja justamente isso a maior crueldade do tal sentimento. Se não fosse possível aguentá-lo, alguma coisa - obrigatoriamente - seria feita. Mas já que é algo que "apenas" martela o fundo da mente - e do coração -, instaura-se falsamente uma outro pensamento: "Posso viver com isso".
O que é ilusão, porque uma hora já não será mais possível aguentar.
Quem sabe eu não devesse estar aqui.
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segunda-feira, 6 de outubro de 2014
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
Des-consciente (parte 3)
Um zunido estranho
está me incomodando. Tão rápido quanto perdi a consciência – ou me perdi, não
sei –, eu a recuperei. A escuridão que antes tomava conta de minha visão e
parecia invadir meu ser agora não mais existe. Parece que estou deitado. Olho
pro teto. Mas até algum tempo atrás eu não era apenas uma consciência sem
forma?
Aparentemente, aquele
flash não apenas me levou a outro lugar, mas também me devolveu o corpo ao qual
eu estava acostumado durante todos esses meus anos de vida. Não sei como e
muito menos o porquê de tudo isso. Aliás, eu não estou entendendo nada do que
está acontecendo. Absolutamente nada. Só sei que consigo sentir meus pés, meus
braços, minhas mãos e todos os outros membros. E consigo sentir, de fato, que
estou deitado.
Acima de mim, apenas
um teto muito alto e branco. Olho para os lados e só vejo branco. Paredes
brancas. Chão branco. Será que também
estou branco?! Por sorte, não estou. E ao me olhar, percebo que estou nu. Olho
ao redor, mas não há roupa alguma para vestir. Porém, como também não parece
haver ninguém por perto, não me preocupo com isso.
Então, me sento. Este
móvel onde estou parece uma daquelas camas de hospital – metálicas e com uma
aparência etérea. Me espreguiço, como se estivesse acordando de uma longa e
confortável noite de sono. Mas acredito que não tenha dormido – e, se dormi,
não foi nem um pouco confortável.
Hora de colocar os
pés no chão. E, surpresa!, ele não está gelado como eu havia pensado. É até bom
saber que finalmente estou reconectado à Terra. Olho novamente ao meu redor e
não vejo absolutamente nada. Apenas um longo e amplo corredor com teto, chão e
paredes brancas. Pelo menos, penso eu, não estou numa sala trancado entre
quatro paredes.
Decido seguir por
aquele longo corredor. Ele parece bem comprido, tanto que não consigo enxergar
seu fim, mas em algum ponto ele precisa terminar. E com esse pensamento em
mente, começo a caminhar.
Desnudo e descalço,
mas consciente, passo após passo vou pensando nas coisas que me aconteceram e
nas possíveis razões de terem acontecido, mas nada faz sentido. Nada parece ser
a resposta correta pra esse grande enigma em que me encontro. Penso em meus
pais e no quanto devem estar preocupados comigo. Penso no meu relacionamento
que estava começando a dar certo. Penso no meu trabalho – meu chefe deve estar
puto comigo por ter faltado durante todo esse tempo!
Mas quanto tempo? Não
faço ideia. Não consigo ter nenhuma noção de quanto tempo decorreu desde o
momento em que abri meus olhos e estava naquela sala escura, com aquela coisa
se mexendo e vindo na minha direção, até agora. Pode ter sido apenas algumas
horas ou pode, o que me preocupa, ter sido mais do que semanas.
Continuo caminhando.
Sinto que mais algumas horas já se passaram, mas nada mudou. O branco está
absolutamente em todos os lugares, não importa para onde eu olhe. Nem sombras
existem, já que a claridade é total. E isso é pior que a escuridão completa,
acredite.
Sem perder as
esperanças, continuo corredor adentro, até que, ao meu lado direito, uma porta
– que eu não havia visto até então – se abre. E eu saio de lá, igualmente nu.
Sim. Eu. Outro eu. A única diferença entre nós dois é que ele parece estar
muito bem situado naquele ambiente e está segurando uma bandeja prateada com
aquelas tampas redondas e pomposas – enquanto eu, provavelmente, estou com a
expressão perdida e sem nada em mãos.
Ao me ver, o Outro Eu
sorri de uma forma que me deixa muito perturbado, como se soubesse de coisas
que não sei e estivesse satisfeito com isso. Ele então segura a tampa da
bandeja com a outra mão e a levanta, revelando o que traz consigo e oferecendo
a mim.
Um telefone normal.
Nada além de um telefone comum, que qualquer pessoa tem em casa. Casa. Será que
ele – eu – está me dando a oportunidade
de ligar pra casa e tranquilizar meus pais? Não. Não parece ser isso. Sempre
fui de levar em conta minha intuição e poucas vezes estive errado. A razão
desse telefone estar sendo oferecido a mim é outra.
Me ocorre de
perguntar algo ao meu outro eu, mas de alguma forma sei que ele não será útil.
Pode parecer imbecil da minha parte, visto que ele saiu de uma porta com algo
para mim e carrega no rosto uma expressão confiante. Mas... não.
Talvez a resposta
esteja atrás daquela porta. Quando estou prestes a dar meu primeiro passo para
invadi-la, o telefone toca. Eu olho para o Outro Eu, e ele apenas me olha de
volta. Percebo que a ligação é pra mim. Pego o telefone, coloco-o sobre o
ouvido.
E digo: “Alô?”
quarta-feira, 31 de julho de 2013
Des-consciente (parte 2)
Mas, ao mesmo tempo, é estranho. No momento em que essa
coisa – que eu continuo sem saber o que exatamente é – retorna a mim, a sala
escura torna-se mais clara. Lenta e gradualmente, como uma gota quando toca a
superfície de um lago calmo. E eu sou essa gota. A partir de mim, a sala começa
a ser invadida por uma luz amarelada e quente.
Mas eu continuo com muito frio, e me sinto deslocado dessa
sala. Ah, sim, agora consigo ver onde me encontro, e não é nada além da minha
sala de estar. Até a televisão estragada, que empoeirava em cima de um móvel
antigo, estava ligada.
Mas... ela está funcionando corretamente. Sintonizada em
algum canal passando imagens aleatórias de um homem jovem e sorridente, cuja
fisionomia não me é estranha. Parece meu pai. Acho que... não. Não pode ser.
Sou eu. Mas não lembro de ter vivido as coisas que estão passando naquela velha
televisão. Não lembro de ter surfado com um filho – que sequer existe. Não
lembro de ter casado num belo campo e, mais assustador, com uma bela mulher –
que sequer conheço.
Mas está tudo acontecendo. Ou melhor. Tudo aconteceu e foi
gravado, tanto é que estou assistindo à minha própria vida. Será que perdi a
memória? Mas então o que estou fazendo aqui? Não, acho que não foi isso. Essas
coisas não foram vividas por mim, mesmo que essa televisão velha da minha mãe
tente me desmentir. Eu sinto que não vivi. Sinto que ela está tentando me dizer
alguma coisa com essas cenas todas.
Mas eu (ainda) não sei de nada. De repente, a televisão
desliga. E, com ela, as outras luzes da sala. Sinto mais frio ainda. E me dou
conta novamente de que meu corpo não está como sempre foi. Na verdade, com a
súbita escuridão que domina aquela sala antes iluminada, me sinto como uma
sombra – sem forma, mas pensante.
Mas. Mas. Mas. Mas. Mas. São tantos ‘mas’ que não sei mais o
que pensar. Minha vida não-vivida, mas gravada. Minha atual existência aparentemente
incorpórea, mas consciente. Essa ‘coisa’ que está em mim, mas não sei o que é.
Ainda parado naquele ambiente totalmente escuro, sem ter
para onde olhar ou mesmo como me mexer, eu espero. Espero por alguns minutos,
que logo se transformam em horas, que logo se transformam em dias. Ou será que
não passou tempo algum? Difícil dizer. Impossível, na verdade.
Até que um flash ilumina aquela sala. Um flash súbito e
cegante, com menos de um segundo de duração. Consegui vislumbrar apenas paredes
muito brancas e aparentemente sem fim. Antes de conseguir digerir essa
informação, um barulho agudo e ensurdecedor racha meu crânio, mesmo que eu
aparentemente não tenha um. E o que resta de mim perde a consciência. E, se eu
sou apenas consciência, me perco.
terça-feira, 30 de julho de 2013
Des-consciente (parte 1)
Abro os olhos. Não enxergo nada. Fico em dúvida se estão
realmente abertos. Mas... eles estão – percebo isso porque a escuridão desaparece
lentamente e meus olhos agora conseguem discernir formas difusas à frente.
Estranho. Alguma coisa parece estar se mexendo. E mais
estranho ainda: parece estar vindo na minha direção. Não sei se estou sentado
ou em pé. Nem mesmo sei se meus pés estão no chão. Se eu tenho pés. A sensação
que tenho é a de ser apenas uma consciência sem forma parada no meio daquela confusa
sala escura.
Aliás, confuso estou eu. Não me restam dúvidas de que algo
se aproxima. Mas eu simplesmente não faço ideia do que possa ser. Penso em me
mover, mas realmente apenas ‘penso’, porque nada acontece quando tento
transferir este comando para minhas pernas. (Pernas?)
A escuridão é quase total. E a ‘coisa’ – cujos contornos são
difusos – está muito próxima. Se eu esticasse meu braço, poderia tocá-la. O
problema é: não consigo fazer isso. E o curioso é que mesmo tão perto não
consigo ter ideia do que seja. E então...
Ela me toca. Não. Ela me preenche. Não. Ela entra em mim.
Não. Ela se torna eu. Não. Eu me torno ela. Não. Nós apenas nos reencontramos.
Sim.
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