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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Superficial

O rapaz estava se sentindo péssimo. O dia finalmente havia chegado. Naquele aeroporto movimentado e barulhento, mais uma despedida inauguraria a triste distância entre duas pessoas que realmente se gostavam.

O rapaz estava se sentindo confuso. O dia finalmente havia chegado. Naquele aeroporto movimentado e barulhento, mais uma despedida inauguraria a nova fase em sua vida, mesmo que isso significasse a distância entre duas pessoas que realmente se gostavam.

Havia uma contagem regressiva implícita nos últimos meses. O jovem de 20 anos estava sofrendo pela iminência da distância. Pela iminência da solidão. Pela iminência da mudança – que daqui pra frente faria da vida uma experiência bem diferente da que estava acostumado.

Havia uma contagem regressiva explícita nos últimos meses. O jovem de 21 anos estava nervoso pela iminência da distância. Pela iminência de novas experiências. Pela iminência da mudança – que daqui pra frente faria da vida uma experiência bem diferente da que estava acostumado.

Ele conseguia sorrir e mostrar empolgação. Mas, sendo bem sincero, no fundo do peito, sentia uma agonia muito grande. Uma agonia por ter que se despedir da pessoa que vinha deixando os seus dias mais felizes. Mais completos. Mais cheios de amor. Uma agonia porque ele estava ficando. E o seu amado indo.

Ele conseguia consolar e mostrar tristeza. Mas, sendo bem sincero, no fundo do peito, ele sentia uma empolgação muito grande. Uma felicidade por estar se despedindo de tudo o que conhecia para viver dias mais felizes. Mais completos. Mais cheios de amor. Uma felicidade porque estava indo. Mesmo que o seu amado estivesse ficando.

É claro que estava triste por ter em seu peito essa sensação de agonia e desamparo. Queria estar integralmente feliz pela pessoa que tornou os seus últimos 8 meses mais alegres e completos, e que, com o perdão da pieguice, mostrou que o amor saudável – e não destrutivo – é possível. Mas não dava. A distância era sinônimo de solidão.

É claro que estava triste por ter em seu peito essa sensação de empolgação e euforia. Queria sentir mais empatia pela pessoa que tornou os seus últimos 8 meses mais alegres e completos, e que, com o perdão da pieguice, mostrou que o amor saudável – e não destrutivo – é possível. Mas não dava. A distância era sinônimo de novas possibilidades.

O aeroporto estava lotado. Tantas pessoas sem rosto correndo de um lado para o outro. Chorando, sorrindo, se abraçando. Sentindo falta. E o rapaz ali, de frente para quem tanto amava e que estava indo embora. Indo embora para viver outros mundos. Para conhecer outras pessoas. Para ser livre.

O aeroporto estava lotado. Tantas pessoas sem rosto correndo de um lado para o outro. Chorando, sorrindo, se abraçando. Sentindo falta. E o rapaz ali, de frente para quem tanto amava e que estava ficando por aqui. Ficando por aqui para viver a vida de sempre. Para, com sorte, conhecer algumas pessoas. Para continuar aqui, preso.

Última chamada para o voo. E último beijo. E último abraço. E último olhar. Apenas o começo de uma solidão sem prazo de validade definido.

Última chamada para o voo. E a possibilidade de novos beijos. E a possibilidade de outros abraços. E a possibilidade de outros brilhos em outros olhares. Apenas o começo de uma nova vida.

- Te amo.

- Te amo.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Para: alguém.

Eu ainda não te conheço, moço. Talvez tenhamos nos cruzado alguma vez por aqui. Eu vivo pra lá e pra cá, mesmo. Talvez venhamos a nos conhecer só daqui a uns 15 anos. Apesar de que, pensando bem, eu espero que não demore tanto.

A vida tem andado complicada. Não ruim. Complicada, sabe? Como te disse, vivo de um lado para o outro, correndo pra conseguir fazer tudo o que preciso. Passo por tanta gente durante o dia. De verdade. Gente bonita, gente feia. Gente querida, gente chata. Gente com um brilho nos olhos, gente com o olhar esmaecido. Gente, gente, gente. Mas, poxa. Nenhuma dessas pessoas parece ser você.

Caso seja, se manifeste. Se bem que, assim como eu, você ainda deve estar me procurando. Todas essas pessoas passam por mim e eu fico na ânsia por te reconhecer nos olhos de alguma delas. Por sentir um solavanco na boca do estômago. Por sentir cócegas dentro de mim, causadas por essas travessas e agitadas borboletas.

Quando eu te conhecer, as coisas vão melhorar. A loucura vai encontrar uma casa pra repousar. A correria do dia vai ter pra onde voltar. Eu sempre concordo quando dizem que as melhores coisas do mundo não são coisas. Que bom que você não é uma coisa.

De você, meu querido, eu sinto saudades. Por você, meu bem, eu sinto vontades. É certo que ainda não te conheço, mas certeza maior não há: eu não preciso ter em minha mente as suas feições, se o meu coração já bate mais forte por tudo o que você vai me fazer sentir.

Espero que entenda as saudades antecipadas. Sentir isso por alguém que vai me fazer tão feliz é perfeitamente normal. Ou, ao menos, deveria ser. Não sei se você tem algum esclarecimento sobre a falta que sente de mim. Acho que as pessoas são todas bem diferentes, né? Aconteceu, por acaso – ou não –, de eu ser assim: tanto sentimento, ímpeto por contato e necessidade de você.

Hoje, no ônibus, meus olhares se cruzaram com os de alguém. Se foi com os seus, também deve ter sentido o que senti. Me avise, por favor. O silêncio será, por questão de lógica, uma resposta negativa – com a qual estou, infelizmente, tão acostumado.

Algum dia você aparece. E fica. Até que esse momento chegue, tenho pensado sobre escrever cartas em outras línguas.

Nunca se sabe, né?

Atenciosa e carinhosamente,

o outro alguém.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Do1s

A luz me cega por alguns instantes. O rapaz tenta me olhar, mas – como eu já sabia – não consegue. Desnorteado, dou alguns passos pra trás em busca de apoio. Coitado... acha que existe alguma superfície tangível por aqui. Ao mesmo tempo em que vejo, não sinto nada – e isso me deixa confuso. Vou caminhando até ele. A luz aumenta e preciso fechar os olhos. Que vontade de gargalhar. A coisa tá chegando mais perto. Passo, passo, passo. Ela parece estar flutuando. Passo, passo, passo. Quero correr, mas não consigo. Estou próxima e começo a me sentir ansiosa. Meus pés não me obedecem. Vou preenchê-lo. Não posso abrir os olhos. Quase posso tocá-lo. Sinto um calor enorme próximo ao rosto. Estendo a mão em direção à sua bochecha. Sinto que vou me queimar. Encosto em seu rosto. As palavras somem. Satisfação. Não queimo. Estou mudando. Me assusto. Me acalmo. Arrisco abrir os olhos. Continuo com minha mão em seu rosto. Luz, luz, luz, luz, luz. Que corajoso. Mas consigo permanecer de olhos abertos. Ele abriu os olhos. Não estou mais cegando. Já deve ter percebido que pode me encarar. Mesmo com essa luz absurda. Mesmo com a minha energia. O que é isso que me toca? Me sinto cada vez menos luz e mais humana. Parece uma mulher, mas é diferente, fluída. Não posso tirar minha mão de seu rosto. A mão segue em minha bochecha. Nunca havia sentido isso antes. Nunca havia sentido isso antes. Um instante. Uma eternidade.

domingo, 22 de junho de 2014

Porque

Porque estou sozinho? Porque não consigo entender a situação? Porque preferiram outra programação do que aquela que me incluía? Porque as coisas são assim? E outra coisa: porque vivemos nos perguntando o porque das coisas? Seria porque estamos eternamente insatisfeitos? Ou porque simplesmente não aceitamos as coisas como elas são – ou deveriam ser?

Cada dia que passa é um dia a mais ou um dia a menos? Porque existe essa dúvida? Não seria ela recorrente da eterna e inerente incapacidade do ser humano de aceitar ser ‘simplesmente mais um’ em meio a tantos? Essa pergunta parece um tanto quanto negativa, mas será – será mesmo – que não é válida para questionamentos?

Talvez sim, porque adoramos um porque aqui e outro ali. Até que um porque é empilhado em cima de outro e aí temos infinitos “porque” perdidos – que refletem de forma absolutamente desorganizada as incontáveis dúvidas que insistem em nos assombrar.

Certa vez alguém disse que pessoas inteligentes tendem a ser mais negativas porque a atividade de pensar cria problemas que ainda não exatamente existem. Pois talvez, na verdade, isso não faça sentido. (E não se irrite com tantos talvez. Assim como o insistente porque, tudo é dúvida, incerteza e insatisfação).

Perdão. Retornemos ao ponto. Essa afirmação pode ser absolutamente errônea, porque “ser negativo” é, em variadas medidas que dependem de pessoa para pessoa, característica do ser humano. De todo ser humano. O porque disso? Simplesmente pelo fato de que todos queremos, sempre, saber o porque de cada pequena ou grande coisa feita, ouvida, percebida, lida, sentida, vista, ignorada. Vivida.

E cada porque o levará à uma resposta. E cada resposta o levará a outro porque. Até que as tão desejadas respostas – que em sua maioria são, na verdade, insatisfatórias – se esgotam. E cada porque fica sem par. E cada porque fica no ar. Em busca de, pelo menos, algum talvez. E aí, cá estamos nós: aspectos negativos que todos carregam consigo.

Antes de você sair em busca de mais respostas insatisfatórias, entenda: este texto não busca responder absolutamente nenhuma das suas perguntas. Pelo contrário, espera-se que, pelo menos, alguns outros “porque” surjam na sua mente e te façam correr atrás de “respostas”. Com aspas, mesmo.

Falando nisso, você pode tentar se enganar ou qualquer coisa do tipo, mas vai acabar percebendo que toda resposta é a mesma. Que toda resposta é um mascarado talvez.

Assim como, percebam neste texto, todo porque é exatamente igual.

sábado, 21 de junho de 2014

Elx

Meus cabelos estavam bagunçados. Fio sobre fio. Sem controle. Meus braços estavam começando a suar. Gota sobre gota. Escorrendo. E mesmo assim – mesmo longe de estar “atraente” – você veio até mim. Sentindo vontade. Sentindo necessidade.

O que eu podia fazer? Te abracei com toda minha força, puxando seu rosto para o meu rosto. Misturando o seu calor com o meu calor. E desejando, tão fortemente, a sua saliva com a minha saliva.

O abraço não foi terno. Não foi carinhoso ou mesmo querido. Foi exatamente como deveria ser. Apertado. Intensamente sexual e insanamente quente. Ao ter seu corpo contra o meu, tive também o seu sexo. Com força, te puxei ainda mais para mim, e não me surpreendi ao perceber que você, esquecendo das leis da física, também me quis ainda mais perto.

Nunca te desejei tanto quanto naquele momento. Meus olhos permaneciam fechados, certos de que os outros sentidos fariam todo o trabalho de percepção de uma forma muito mais completa e intensa. Imagino que você também estava de olhos fechados, mas sobre isso nunca poderei ter certeza. O fato é: eu te sentia com todo meu corpo. Cada milímetro da sua pele queimava contra a minha, e não sei se era por essa razão ou alguma outra, mas eu não aguentava: entre beijos desesperados e mordiscadas ousadas, eu suspirava alto. Gemia.

Nos deparávamos, ali, com o que tínhamos de mais animal em nossa essência. O que era sentido, era imediatamente feito. E foi assim que minha mão foi parar na parte mais quente do seu corpo, onde repousava – alguns diriam – a fonte do desejo. Tanto o seu quanto o meu.

Em meio a tantos beijos, gemidos e suspiros, consegui espaço – ou tempo, como queira – para abrir um pequeno sorriso. A culpa foi sua, pois, imediatamente, tornou-se ainda mais ofegante e, sem dúvida, selvagem. Me apertava. Me puxava. Me lambia. Me sentia com toda ânsia da entrega completa.

Fui adiante. Desgrudei meus lábios do seu pescoço e comecei a descer. Aliás, não “comecei a descer”. Você viu. Eu simplesmente desci – como mandou o instinto, a necessidade, a vontade de você – ficando com os olhos na altura da sua calça – que, eu podia sentir, implorava para ser aberta. Para ser finalmente descoberta.

O que aconteceu a seguir... eu preciso de outra carta para explicar. Só digo uma coisa: criatura, você é a mulher mais excitante com a qual já me relacionei. E o homem mais gostoso com o qual já tive o prazer de ter contato.

Acredite.

domingo, 15 de junho de 2014

Sólido(ão)

Solidão é uma palavra que combina com outros aumentativos. Assim como “grandão”, “amigão” e uma infinidade de outros exemplos, solidão tem essa força em sua entonação final. Ão. Ão. Ão. Tem vontade, tem energia. Tem tamanho.

Palavras assim derivam daquelas que possuem uma dimensão padrão (de novo: ão, ão), como “grande” e “amigo”. E com a solidão não poderia ser diferente – a palavra que denomina seu tamanho normal combina perfeitamente com o significado.

Sólido. Pode parecer paradoxal a palavra que origina o aumentativo “solidão” significar o oposto de abstrato. Mas não. Na verdade, faz todo sentido.

Segundo o dicionário, algo sólido é, entre outras coisas, algo forte e incontestável. Algo que, mesmo com adversidades e interferências externas, mantém-se com a mesma forma – com as superfícies que a delimitam sem transformações ou mudanças. É algo que não sofre interferências. Que não se deixa “ser outro”.

E a solidão? Não podemos esquecer dela. Tudo se encaixa quando percebemos essa etimologia oculta. Solid-ão é tudo isso dito no parágrafo anterior com uma intensidade ainda maior.

É quando a não-interferência é demais. Quando a impossibilidade de ser modificado por forças externas é exagerada. Quando toda essa inacessibilidade do objeto – ou da pessoa em questão – ultrapassa os limites.

Estar sozinho é não ser modificado, polido ou mesmo tocado. Estar sozinho é permanecer da mesma forma. Estar sozinho é estar incapaz de aceitar a possibilidade de ser outro – de ser melhor. De mudar de forma e evoluir.

E aí, nesse ponto, alguém ‘sólido’ passa a ser alguém ‘solidão’.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Prólogo

Hoje eu almocei lendo.

Lendo os teus olhos focados no prato à frente. Nos teus olhos que, em momentos do tamanho da eternidade, cruzavam com os meus.

Hoje eu almocei lendo.

Lendo os teus lábios úmidos e inquietos, delicadamente engordurados por causa dos alimentos que levava do prato à boca e mastigava com certa displicência.

Hoje eu almocei lendo.

Lendo os movimentos dos teus braços, as idas e vindas do pescoço e os reposicionamentos constantes das pernas por baixo da mesa.

Até que o livro se fechou. Você levantou. Pegou suas coisas e me deixou procurando pelos próximos capítulos.

 (Hoje eu almocei lendo.

E percebi que você desempenha muito bem o papel de protagonista).

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Des-consciente (parte 3)

Um zunido estranho está me incomodando. Tão rápido quanto perdi a consciência – ou me perdi, não sei –, eu a recuperei. A escuridão que antes tomava conta de minha visão e parecia invadir meu ser agora não mais existe. Parece que estou deitado. Olho pro teto. Mas até algum tempo atrás eu não era apenas uma consciência sem forma?

Aparentemente, aquele flash não apenas me levou a outro lugar, mas também me devolveu o corpo ao qual eu estava acostumado durante todos esses meus anos de vida. Não sei como e muito menos o porquê de tudo isso. Aliás, eu não estou entendendo nada do que está acontecendo. Absolutamente nada. Só sei que consigo sentir meus pés, meus braços, minhas mãos e todos os outros membros. E consigo sentir, de fato, que estou deitado.

Acima de mim, apenas um teto muito alto e branco. Olho para os lados e só vejo branco. Paredes brancas. Chão branco.  Será que também estou branco?! Por sorte, não estou. E ao me olhar, percebo que estou nu. Olho ao redor, mas não há roupa alguma para vestir. Porém, como também não parece haver ninguém por perto, não me preocupo com isso.

Então, me sento. Este móvel onde estou parece uma daquelas camas de hospital – metálicas e com uma aparência etérea. Me espreguiço, como se estivesse acordando de uma longa e confortável noite de sono. Mas acredito que não tenha dormido – e, se dormi, não foi nem um pouco confortável.

Hora de colocar os pés no chão. E, surpresa!, ele não está gelado como eu havia pensado. É até bom saber que finalmente estou reconectado à Terra. Olho novamente ao meu redor e não vejo absolutamente nada. Apenas um longo e amplo corredor com teto, chão e paredes brancas. Pelo menos, penso eu, não estou numa sala trancado entre quatro paredes.

Decido seguir por aquele longo corredor. Ele parece bem comprido, tanto que não consigo enxergar seu fim, mas em algum ponto ele precisa terminar. E com esse pensamento em mente, começo a caminhar.

Desnudo e descalço, mas consciente, passo após passo vou pensando nas coisas que me aconteceram e nas possíveis razões de terem acontecido, mas nada faz sentido. Nada parece ser a resposta correta pra esse grande enigma em que me encontro. Penso em meus pais e no quanto devem estar preocupados comigo. Penso no meu relacionamento que estava começando a dar certo. Penso no meu trabalho – meu chefe deve estar puto comigo por ter faltado durante todo esse tempo!

Mas quanto tempo? Não faço ideia. Não consigo ter nenhuma noção de quanto tempo decorreu desde o momento em que abri meus olhos e estava naquela sala escura, com aquela coisa se mexendo e vindo na minha direção, até agora. Pode ter sido apenas algumas horas ou pode, o que me preocupa, ter sido mais do que semanas.

Continuo caminhando. Sinto que mais algumas horas já se passaram, mas nada mudou. O branco está absolutamente em todos os lugares, não importa para onde eu olhe. Nem sombras existem, já que a claridade é total. E isso é pior que a escuridão completa, acredite. 

Sem perder as esperanças, continuo corredor adentro, até que, ao meu lado direito, uma porta – que eu não havia visto até então – se abre. E eu saio de lá, igualmente nu. Sim. Eu. Outro eu. A única diferença entre nós dois é que ele parece estar muito bem situado naquele ambiente e está segurando uma bandeja prateada com aquelas tampas redondas e pomposas – enquanto eu, provavelmente, estou com a expressão perdida e sem nada em mãos.

Ao me ver, o Outro Eu sorri de uma forma que me deixa muito perturbado, como se soubesse de coisas que não sei e estivesse satisfeito com isso. Ele então segura a tampa da bandeja com a outra mão e a levanta, revelando o que traz consigo e oferecendo a mim.

Um telefone normal. Nada além de um telefone comum, que qualquer pessoa tem em casa. Casa. Será que ele – eu –  está me dando a oportunidade de ligar pra casa e tranquilizar meus pais? Não. Não parece ser isso. Sempre fui de levar em conta minha intuição e poucas vezes estive errado. A razão desse telefone estar sendo oferecido a mim é outra.

Me ocorre de perguntar algo ao meu outro eu, mas de alguma forma sei que ele não será útil. Pode parecer imbecil da minha parte, visto que ele saiu de uma porta com algo para mim e carrega no rosto uma expressão confiante. Mas... não.

Talvez a resposta esteja atrás daquela porta. Quando estou prestes a dar meu primeiro passo para invadi-la, o telefone toca. Eu olho para o Outro Eu, e ele apenas me olha de volta. Percebo que a ligação é pra mim. Pego o telefone, coloco-o sobre o ouvido.

E digo: “Alô?”

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Des-consciente (parte 2)

Me sinto preenchido. Preenchido de uma forma estranha e diferente, como eu jamais havia sentido antes. Nada parecido com um orgasmo. Ou com aquele tapa na cara de alguém que te irrita demais. É algo muito além disso tudo.

Mas, ao mesmo tempo, é estranho. No momento em que essa coisa – que eu continuo sem saber o que exatamente é – retorna a mim, a sala escura torna-se mais clara. Lenta e gradualmente, como uma gota quando toca a superfície de um lago calmo. E eu sou essa gota. A partir de mim, a sala começa a ser invadida por uma luz amarelada e quente.

Mas eu continuo com muito frio, e me sinto deslocado dessa sala. Ah, sim, agora consigo ver onde me encontro, e não é nada além da minha sala de estar. Até a televisão estragada, que empoeirava em cima de um móvel antigo, estava ligada.

Mas... ela está funcionando corretamente. Sintonizada em algum canal passando imagens aleatórias de um homem jovem e sorridente, cuja fisionomia não me é estranha. Parece meu pai. Acho que... não. Não pode ser. Sou eu. Mas não lembro de ter vivido as coisas que estão passando naquela velha televisão. Não lembro de ter surfado com um filho – que sequer existe. Não lembro de ter casado num belo campo e, mais assustador, com uma bela mulher – que sequer conheço. 

Mas está tudo acontecendo. Ou melhor. Tudo aconteceu e foi gravado, tanto é que estou assistindo à minha própria vida. Será que perdi a memória? Mas então o que estou fazendo aqui? Não, acho que não foi isso. Essas coisas não foram vividas por mim, mesmo que essa televisão velha da minha mãe tente me desmentir. Eu sinto que não vivi. Sinto que ela está tentando me dizer alguma coisa com essas cenas todas.

Mas eu (ainda) não sei de nada. De repente, a televisão desliga. E, com ela, as outras luzes da sala. Sinto mais frio ainda. E me dou conta novamente de que meu corpo não está como sempre foi. Na verdade, com a súbita escuridão que domina aquela sala antes iluminada, me sinto como uma sombra – sem forma, mas pensante.

Mas. Mas. Mas. Mas. Mas. São tantos ‘mas’ que não sei mais o que pensar. Minha vida não-vivida, mas gravada. Minha atual existência aparentemente incorpórea, mas consciente. Essa ‘coisa’ que está em mim, mas não sei o que é.

Ainda parado naquele ambiente totalmente escuro, sem ter para onde olhar ou mesmo como me mexer, eu espero. Espero por alguns minutos, que logo se transformam em horas, que logo se transformam em dias. Ou será que não passou tempo algum? Difícil dizer. Impossível, na verdade.

Até que um flash ilumina aquela sala. Um flash súbito e cegante, com menos de um segundo de duração. Consegui vislumbrar apenas paredes muito brancas e aparentemente sem fim. Antes de conseguir digerir essa informação, um barulho agudo e ensurdecedor racha meu crânio, mesmo que eu aparentemente não tenha um. E o que resta de mim perde a consciência. E, se eu sou apenas consciência, me perco. 

terça-feira, 30 de julho de 2013

Des-consciente (parte 1)

Abro os olhos. Não enxergo nada. Fico em dúvida se estão realmente abertos. Mas... eles estão – percebo isso porque a escuridão desaparece lentamente e meus olhos agora conseguem discernir formas difusas à frente.

Estranho. Alguma coisa parece estar se mexendo. E mais estranho ainda: parece estar vindo na minha direção. Não sei se estou sentado ou em pé. Nem mesmo sei se meus pés estão no chão. Se eu tenho pés. A sensação que tenho é a de ser apenas uma consciência sem forma parada no meio daquela confusa sala escura.

Aliás, confuso estou eu. Não me restam dúvidas de que algo se aproxima. Mas eu simplesmente não faço ideia do que possa ser. Penso em me mover, mas realmente apenas ‘penso’, porque nada acontece quando tento transferir este comando para minhas pernas. (Pernas?)

A escuridão é quase total. E a ‘coisa’ – cujos contornos são difusos – está muito próxima. Se eu esticasse meu braço, poderia tocá-la. O problema é: não consigo fazer isso. E o curioso é que mesmo tão perto não consigo ter ideia do que seja. E então...

Ela me toca. Não. Ela me preenche. Não. Ela entra em mim. Não. Ela se torna eu. Não. Eu me torno ela. Não. Nós apenas nos reencontramos.

Sim.

domingo, 5 de maio de 2013

Tumulto

No centro daquela movimentada cidade, todos que passavam tinham pelo menos uma coisa em comum: a pressa. Passos ligeiros, pensamentos distantes e olhos desfocados faziam das pessoas não mais do que robôs tentando chegar aos seus objetivos – sejam eles o trabalho, escola, faculdade ou qualquer outro tipo de compromisso. No meio desse emaranhado de gente tentando caminhar na apinhada e suja calçada, um menino franzino tentava a sorte. – Moço, o senhor pode me ajudar? – A criança sorriu, tímida. Seus olhos possuíam uma luz fraca, do tipo que já cansou de brilhar devido às peças pregadas pela vida.

– Ah, tô sem nada de dinheiro aqui, rapaz.  – Disse o apressado homem, que já há algum tempo não parava para apreciar o mundo e as maravilhas que acontecem nele a todo momento.

– Oi? Mas... eu não quero dinheiro! – E seu sorriso vacilou. Era isso que todos diziam antes de sumirem no mar de gente novamente. Mas, dessa vez, o garoto estava decidido a ter o que tanto queria. Correu atrás do homem, cutucando-o nas costas. Ele se virou, e dessa vez parecia irritado.

– Onde tá sua mãe, hein? Ela deveria estar trabalhando em vez de te fazer pedir esmola aqui no centro!

– Eu não quero o seu dinheiro, moço. Tenho o que comer, apesar de não ser muito e nem de longe se parecer com aquilo que você come. – E, de uma vez por todas, percebendo que o homem parecia curioso, o menino pediu. – O que eu quero, de verdade, é um abraço apertado. Minha mãe trabalha todo dia pra poder nos sustentar, e não sobra tempo pra... essas coisas. E eu sinto falta.

E antes que pudesse continuar falando, o antes apressado homem, vestido com uma camisa social e calça jeans de uma marca cara, abaixou-se e envolveu o garoto com seus braços. Sentira uma imensa sinceridade saindo daquela boca, assim como uma carência por afeto muito maior do que seria aconselhável.

O garoto não precisou falar mais nada. Aquele abraço era tudo que precisava. E exatamente da maneira que precisava. Depois de alguns instantes nesse ato que pareceu eterno, o garoto pensou que seria educado agradecer. Mas, antes que pudesse, as pessoas começaram a empurrar de todos os lados, e o homem e o rapaz foram separados. Cada um pro seu lado.

Um, completamente extasiado com a experiência. Primeira vez em muito tempo que percebeu as coisas ao seu redor, que deu atenção à algo que não sua falta de tempo ou colegas de trabalho. Ao abraçar o garoto, sentiu que um grande peso saia de seus ombros e uma enorme sombra desabrigava-se de sua visão. Sentia-se vivo novamente. Orgânico. Capaz de sentir e transmitir emoções.

O outro obtivera tudo que queria. Um grande e sincero abraço que dispensou qualquer palavra subsequente, pois a emoção alojara-se toda no espaço existente entre os braços entrelaçados: o peito. O coração. O garoto não sentia mais fome de carinho. Podia ir pra casa feliz e satisfeito. Tinha uma sensação esquisita também: que, de alguma forma, ajudara o homem. Libertara-o de si mesmo, das amarras que ele mesmo havia construído.

E isso deixava todo mundo mais feliz. Naquela cidade que nunca para, que tá sempre atrasada e que sequer tem tempo pra manifestações de carinho, a esperança havia sido novamente acesa.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Devaneios e decisões

O vento uivava. As árvores se reviravam. O tempo era de muito frio. 

Porém, dentro de um apartamento a salvo dessas intempéries, se encontrava Lúcia. Aninhada em uma poltrona fofa, ela pensava. Pensava muito. Suas pernas estavam junto ao corpo, e a cabeça repousava sobre os joelhos. A matéria de seus pensamentos era bem ampla e, ao mesmo tempo, bem específica: os rumos que sua vida estava tomando.

Enquanto seu cérebro se embrenhava por caminhos tortuosos, seu olhar pairava em uma janela meio suja ao seu lado. Lúcia tomava um café bem quente e doce, e, em sua mente, concluia de que nada se arrependia. "Faria tudo de novo", afirmava.

Pensou em seu pai e não aguentou: deu uma grande e sincera gargalhada. Aquilo foi, definitivamente, muito divertido. Ele provavelmente estava, nesse momento, boiando em algum rio. Apodrecendo.

Lúcia então levantou-se de chofre. Colocou seus sapatos, enganchou a bolsa no ombro e passou a mão pelos cabelos, se olhando no espelho. Estava linda, como sempre. A roupa estava impecável, pois tinha chegado não fazia muito tempo. Então saiu. Trancou a porta, desceu as escadas e pôs-se a caminhar pela rua. Havia tomado sua decisão.

sábado, 26 de março de 2011

Razões

A morena abre a carta, sentada em sua poltrona, e dá um sorriso debochado ao identificar a caligrafia cuidadosa de seu pai. Permanece séria enquanto seus brilhantes olhos percorrem linha  após linha.

"Lúcia querida, minha filha amada.

Eu e sua mãe estávamos passando por muitas brigas. Diariamente, nos desentendíamos por bobagens... e isso se tornou cada vez mais frequente e sério. Eu não podia deixá-la, já que seu quadro clínico não era dos melhores e sua pequena irmã, Lívia, sofreria ainda mais. Você sabe, não escondemos de você e de sua irmã mais velha: o câncer estava progredindo e atingindo outras partes do corpo. Por isso, mesmo que brigassemos bastante, eu estava sempre ali para auxiliá-la e socorrê-la, caso precisasse. A situação estava incontrolável, eu não aguentava mais. Mas precisava continuar: por ela, por nossas três filhas.

Nesse mesmo dia que tudo estava dando errado e tivemos uma briga especialmente feia, eu conheci Carolina. Ela é doce, sincera e compreensiva. Não falei sobre sua mãe e ela nada perguntou. Começamos a nos envolver mais seriamente. Sempre que acontecia algo mais sério entre mim e sua mãe, Carolina me ajudava a esquecer, me fazia suportar mais um dia de sofrimento, estresse e preocupação. 

Você precisa entender que o que aconteceu não foi minha culpa. Não foi culpa de absolutamente ninguém, além do acaso - ou destino, como queira. Depois de uma briga, fui ver Carolina, como de costume, e sua mãe ficou em casa costurando. Como eu ia saber, querida, que o pior aconteceria nas poucas horas que fiquei fora? Ninguém sofre mais do que eu com isso. Desde o falecimento de sua mãe - minha amada esposa, sim -, eu não vejo Carolina. Não consigo mais. Mariana é a única da família que me ajuda e, graças a Deus, levou Lívia consigo para cuidar, já que nossa pequena era a única que estava em casa e nada podia fazer para salvar sua 'mamãe'.

Eu preciso do seu perdão. Sei que você é diferente das outras duas, inclusive da pequena Lívia, mas precisa me perdoar. Precisa esquecer isso. Eu sofro tanto quanto você, acredite. Te amo muito, muito, muito.

Com carinho, seu pai."

Após a leitura, algumas palavras permaneciam em sua cabeça. "amada", "câncer", "incontrolável", "perdão", "Carolina"... Lúcia fechou a carta e, devagar, amassou-a. Caminhou até a lixeira e soltou o papel ali. Deu um sorriso frio e murmurou:

- Claro, papai. Você será perdoado. Amanhã mesmo nos veremos...

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Experiência.s

Música, luzes. Homens gritando e rindo, mulheres dançando. Seduzindo. Tudo no mesmo ambiente. Um calor de matar. É, eu esperava por isso. Falando de modo chulo, o puteiro mais famoso da cidade - e caro também. Pelo que via, valia a pena. As garotas ali eram lindas e muito, muito gostosas. A primeira cena que vi quando entrei foi uma mulher sentada no colo de um velho de uns sessenta anos rebolando ao som daquela música provocativa sob as luzes dançantes. Desviei o olhar, ajeitei meu paletó e passei a mão no cabelo. Estava agora perto de um imenso balcão onde várias mulheres seminuas - beldades, na verdade, apenas de calcinha - dançavam e rebolavam, indo até o chão e levando aos céus a excitação dos que as assistiam.

Admito que eu já estava, digamos, fora de mim quando me ajeitei em uma cadeira e coloquei meu casaco ao lado. Antes que percebesse, uma linda ruiva de uns vinte e poucos anos estava na minha frente, com um bloquinho e uma caneta em mãos, pronta para anotar meu pedido. Ela vestia um vestidinho simples, muito curto, e um avental que, propositadamente - creio eu -, instigaram ainda mais minhas fantasias.

- O que vai querer, meu amor? - Disse ela, mordendo a ponta da caneta e me olhando.
 
- Um martini, apenas. Pra começar. - Respondi, percebendo aqueles olhos verdes dela, brilhando. Sorri quando me deu uma piscadela e, jogando os cabelos vermelhos para trás, virou-se de costas e foi em direção ao bar.

Fiquei admirando as beldades que dançavam quase hipnoticamente enquanto minha bebida não chegava. Logo, muito inesperadamente, eu a vi. Mais linda do que todas as outras. Aliás, linda era pouco. Aquela mulher parecia ser irreal, tão maravilhosa que era. Estava a um canto, sem dançar ou demonstrar qualquer interesse no que acontecia ao seu redor. Ela era fascinante.

Quando a bela ruiva - que em comparação com aquela outra parecia tão simples e comum - trouxe meu martini, eu decidi.

- Então… como posso te chamar? - Perguntei, com um sorriso no rosto.
 
- Eva. Apenas Eva. - Falou ela, me olhando de cima a baixo.
 
- Ótimo. Então, Eva… Quem é aquela morena parada ali no canto? - Questionei, cuidando para não demonstrar demasiado interesse, modulando minha voz.
 
- Ah, ela. - resmungou, repentinamente irritada. - É a Lúcia. Trabalha aqui apenas… você sabe, com programas. Mas é nova, hoje é sua primeira noite.
 
- Ela é muito linda. - Eu disse, olhando pra ela.
 
- É o que disseram vários homens hoje. Mas nenhum tinha o necessário pra tê-la, se é que me entende. Pode tentar. Se tem bastante dinheiro aí com você, vai lá. Fala com ela. - Eva falou, visivelmente querendo parecer indiferente. Mordia a caneta e, quando percebeu meu olhar sobre Lúcia, fez um muxoxo de impaciência. - Ela tá no topo por aqui. Chegou hoje e já é a mais cara de todas. Não sei porquê, mas… - Devaneou Eva, revirando os olhos e clicando a ponta da caneta repetidamente.
 
- Ok, muito obrigado, Eva. - Eu disse sorrindo, colocando a mão no bolso da calça e tirando minha carteira. Peguei algum dinheiro lá de dentro, sem olhar, e entreguei a ela.
 
- Ah, eu que agradeço, docinho. - Abrindo um sorriso pra mim, pegou o dinheiro e colocou entre os peitos. Mordeu os lábios, me deu uma olhada e se virou, caminhando para o bar.

Lúcia. Então esse era o nome daquela divindade. Tomei um gole do meu martini, pus a carteira de volta no bolso e levantei. Lúcia então se virou e seu olhar parou exatamente em mim. Seu olhar era profundo e algo nele me amedrontou, mas eu não desviei. Mantive meus olhos cravados nos seus até que estávamos bem próximos. Sorri, mas me senti imensamente fraco e inexperiente - coisa que definitivamente eu não era - perto dela. Lúcia se mantinha séria e absoluta sob seu vestido vermelho e sedutor. Tinha um corpo lindo, mas seu rosto me hipnotizava. Então ela quebrou o silêncio.

- Oi. Eu sou Lúcia. - Falou, me dando um sorriso. Um sorriso que gelou meus ossos, mas ao mesmo tempo uma vontade voraz de dominá-la, tocá-la, tê-la, me invadiu de uma maneira nunca vista. Eu precisava dela.

- Meu… meu nome é Carlos. - Eu me apresentei, meio atordoado. Ela era deslumbrante, porém seus olhos eram frios e indiferentes. Mas muito - absurdamente -  sedutores, assim como toda sua figura.

- Quer alguma coisa comigo? - Ela falou, séria, me analisando. Sentia aqueles seus olhos cravados em mim, como se me escaneasse. Eu tentei voltar à minha pose antiga.

- Sim. Eu quero você. - Tentei ser o mais direto possível, assim como ela foi.
 
- É, eu sei, todos querem. Tem dinheiro aí? - Ela deu um sorriso que não chegou aos seus olhos e me fez desejá-la ainda mais. Aquele mistério por trás dessa máscara de frieza.
 
- Tenho, muito. E estou disposto a usá-lo todo com você. - Falei, pegando minha carteira, afobado.
 
- Essa parte não é comigo. Você paga ali, com aquele homem alto. - Lúcia me disse, apontando para um homem no balcão central, de aparência forte e violenta.

Fui até lá, com a carteira em mãos, e tirei quase todo o dinheiro que estava lá dentro. O homem notou minha presença e continuou a me olhar. Lhe entreguei o dinheiro e disse que queria Lúcia. Ele assentiu, sorrindo. Se divertindo. Eu estava ansioso, e o homem apenas me entregou um papel e fez sinal positivo. Liberado.

Caminhei até ela, a bela e sedutora mulher. Ela estava parada me olhando, e estendeu a mão. Eu lhe entreguei o envelope. Ela abriu, leu e deu um um pequeno sorriso. Passou a mão pelos cabelos assentando-os pra trás e novamente me encarou. Ficou séria e disse:

- Então você será meu primeiro cliente. Vamos lá. - E começou a caminhar em direção à uma escada. Eu a segui, sorrindo, satisfeito comigo mesmo.

Subimos as escadas e caminhamos por um corredor mal iluminado e, pode-se dizer, luxuoso. Dobramos a direita e demos mais alguns passos, até que ela se virou pra mim, séria, e abriu uma porta. Entrei logo depois de Lúcia no aposento. Era espaçoso, limpo e realmente instigante. Ela foi em direção a uma poltrona e, de uma vez, tirou o vestido.

Eu enlouqueci. Aquele corpo, todo pra mim. A perfeição. Sempre me olhando, ela agora estava apenas de calcinha e sutiã. Ergueu uma sobrancelha, abriu um pequeno sorriso debochado e falou:

- Sua vez. - E, caminhando para mais perto de mim, disse: - Ou prefere que eu faça isso?

Como eu mantive silêncio, admirado com aquela mulher, ela começou a tirar minha roupa. Iniciou pelo paletó, atirando-o longe, e logo as coisas começaram a esquentar. Depois de tirar minha camisa, desabotoando-a calmamente e me deixando mais ansioso, partiu para as partes de baixo. Quando fez menção de abaixar para tirar minha calça, eu a agarrei e a beijei. Ela retribuiu. Era um beijo estranho - frio, talvez -, mas conseguiu me deixar mais excitado do que já estava.

Após alguns instantes, ela se abaixou. Abriu meu zíper, tirou minha calça. Eu estava apenas de cueca, e a ponto de explodi-la. Então, inesperadamente - pois esperava que ela levantasse agora -, senti sua boca lá. Quase não agüentei durante todo o tempo. Não preciso nem falar o quê. Quando estava prestes a atingir os céus, ela parou. Levantou-se e, sem me beijar, foi para a cama. Fui atrás, ansioso. Agora era minha vez de tirar suas peças de roupa remanescentes.

Depois de algum tempo retribuindo o que ela fez, decidi que estava na hora. Contemplei seu corpo por um instante e fiz o que deveria ser feito. Durante algum tempo, apenas aproveitei a sensação de estar invadindo seu corpo: o corpo escultural daquela mulher maravilhosa. Agora entendia porque era a mais cara, mesmo sendo nova. Ela era ótima, parecia que seguia seus instintos de uma maneira que sempre, sem exceção, me oportunizava a melhor sensação.

Fizemos de todas as maneiras que conseguimos pensar, e no fim eu pensei que teria um ataque no coração, tão intenso foi o orgasmo. Deitei na cama, ao seu lado, após terminarmos, e fiquei arfando durante um tempo, ainda sentindo espasmos. Ela estava apática, sem fôlego também, mas… estranhamente inalterada.

- Você gostou? - Eu perguntei ainda olhando o teto, recuperando o fôlego e sorrindo.

- Eu era virgem. - Repentinamente ela disse. Eu me assustei, virando-me de lado e olhando-a.
 
- Sério? Mas por que você decidiu… - suspirei e falei: - Você sabe.
 
- Eu queria que fosse assim. Mas - e agora foi sua vez de me olhar. - eu não senti absolutamente nada. Eu usei um gel pra que parecesse natural. Todas usam aqui. Não que pra elas seja necessário, - e, mais uma vez, ela olhou para o teto. - mas pra mim foi.
 
- Você não sentiu nada? - Perguntei, me sentindo mal, como se incapaz de dar prazer a uma mulher. - Eu digo, nenhuma excitação ou prazer?
 
- Não.  Absolutamente nada. - Concluiu Lúcia.
 
- Mas em um momento você realmente pareceu estar gostando. - Eu disse, mais para melhorar minha auto-estima do que ajudá-la.
 
- Sim, quando eu comecei a te arranhar. E você sentiu dor. - Analisei seus olhos, que brilharam momentaneamente.- Não sentiu?
 
- Eu… Sim, senti. - E então, perguntei novamente. - E isso foi bom?
 
- Não sei, tá bom? - Ela se virou e sentou na cama. - Você pagou, nós fizemos. Agora pode ir embora.

Então, sem dizer palavra, ela se levantou e foi para o banheiro. Eu fiquei sem ação, me sentindo mal, e logo me ergui também. Me vesti devagar, pensando. Ela era a primeira mulher que não sentia nada comigo. O problema, então, não deve residir em mim.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Breve

Esqueça tudo que foi dito. Eu não posso dizer adeus. Não consigo. Você, pra mim, é tudo. Meu início, meio e fim. Como ter um fim sem ser com você? Eu nasci quando te conheci. Minha vida começou junto com aquele primeiro olhar que você dirigiu, tão sinceramente, a mim. Estou voltando. Espere. Espere pelos meus beijos, pelo meu corpo colado ao seu. Assim como eu espero, tão afoitamente, pelo seu sorriso, pelo seu cheiro. Apenas me espere, porque estou chegando.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Descobrindo-se

Lúcia era seu nome. E era melhor não conhecê-la. Claro que, em sã consciência, as pessoas tendem a manter distância. Ela é má. Aliás, má são as pessoas normais. Lúcia é cruel. E ama isso. O engraçado é que seus pais a criaram como criaram a irmã - uma mulher íntegra, dois anos mais mais velha, já casada e muito amorosa.

Ela percebeu com o tempo, depois de uma certa experiência, que adorava ver os outros sofrerem. Isso lhe dava prazer, lhe saciava - como nenhum homem havia conseguido.

O dito ocorrido sucedeu-se num sábado. Mariana, a irmã de Lúcia, precisou ir com o marido a um workshop sobre vendas - que era o seu ramo -, e não tinha ninguém para ficar com seu filho, um menino de oito anos. Pediu a Lúcia, pesarosa, que aceitou após alguma insistência. Tudo aconteceu muito 'naturalmente'.

Lúcia chegou de noite na casa de sua irmã. Uma casa bonita, arrumada e razoavelmente chique. Trouxera sua pequena mala com uma muda de roupa e seus itens de higiene, para passar a noite. Não se preocupara com nada para divertir o garoto - ele devia ter ali o suficiente. Chegou na porta, apertou a campainha. Esperou. Alguns segundos depois, a porta se abriu, e sua irmã apareceu, vestida elegantemente.

Mariana era muito parecida com Lúcia, ao mesmo tempo que tão diferente. Era bonita - porém não tanto quanto a mais jovem -, mas seu traço mais marcante também era o olhar: o de Lúcia era frio, astuto e cruel, e o de Mariana era cálido, amoroso e preocupado. E isso fazia toda a diferença.

- Entra, Lú. - Disse Mariana, abrindo caminho para sua irmã passar.  - Muito obrigada por vir, não tínhamos com quem deixar o Vicente! - Exclamou, dando um abraço em sua irmã e mirando-a de cima a baixo. - Você está bem? Espero que sim, sabe que pode falar comigo sobre o que for. - Falou ela, empurrando cordialmente Lúcia casa adentro.

A vontade que Lúcia tinha era de dizer "Sou frígida", porém resistiu a esse impulso e apenas deu um pequeno sorriso, murmurando algo como "Bem, bem". Elas foram andando pela casa até onde se encontrava o resto da família: o marido de Mariana, um homem alto, bonito e com os cabelos começando a perder a cor, e um menino pequeno para seus oito anos, loiro e bonito.

Quando as irmãs entraram na sala, o pai se levantou, indo na direção das duas, mas o menino sequer olhou, concentrado em seu video game. Quando viu isso, o pai deu uma pequena tossida e o garoto se virou. Entediado, levantou e caminhou junto com seu pai. Primeiro o marido de sua irmã a cumprimentou, com um beijo em cada bochecha, respeitoso. Depois o garoto a puxou para  que conseguisse alcançar sua bochecha, e beijou-a também, sem interesse. Ela deu um sorriso e murmurou um "oi" para ambos. Uma chama se acendeu em seu peito, desconhecida.

O casal conversou - ou tentou manter uma conversa - com Lúcia. Perguntaram sobre estabelecer família, amores, amizades, profissão… Ela apenas respondia automaticamente, sem prestar real atenção. Achava aquilo tudo um saco, um suplício. Queria que eles fossem logo e a deixassem em paz com o menino - que não fazia nada além de apertar aqueles botões do joystick.

Lúcia analisava o garoto quando Mariana e o marido vieram comunicar que precisavam ir. Deram beijos no filho e lhe pediram educação e, como sempre, disseram o clichê "seja um bom garoto".  Foram se despedir de Lúcia, então. Lhe recomendaram ter paciência com o menino e calma. Disseram-lhe o horário de dormir e o que dar para comer. Ela escutou com atenção essa parte - não queria um menino chato chorando por qualquer coisa que ela tenha deixado escapar.

- Então é isso, Lúcia! O Vicente deve dormir às dez e meia! E antes disso tomar um leite com chocolate. Não esquece de fazer ele esco… - Falava Mariana sem parar, parecendo meio preocupado e aflita. Ela e o marido estavam no carro já, dando ré da garagem.

- A Lúcia entendeu, amor. Você disse isso três vezes, já! - Riu-se o marido, olhando para Lúcia e revirando os olhos, divertido. - Ela vai saber o que fazer, não vai, Lúcia? - Perguntou sorrindo o homem, com o carro ligado e começando a andar, devagar.

- Claro que sim. Viajem tranqüilos. - Lúcia sorriu. Uma sombra - ainda - de seu sorriso cruel. Estava na soleira da porta. - Nos vemos amanhã. Vicente e eu vamos nos divertir, vocês vão ver. - Gritou.

O carro foi se distanciando, ao mesmo tempo em que o sol ia sumindo no horizonte. Lúcia fechou a porta com um baque e chaveou-a. Guardou as chaves no bolso e rumou para a sala, onde se encontrava Vicente. Ela sentou no sofá ao lado dele e sorriu.

- Então, querido. Já sei o que podemos fazer. - Ela disse, calmamente, virada para ele.

- Ah!  Eu quero jogar video game! Estou quase passando esse nível! - O garoto falou, concentrado, sem tirar os olhos da tela.

- Não vai dar, Vicente. Desculpa. - Falando isso, ela caminhou até a tv e desligou-a. Olhou para o garoto, que parecia bravo e prestes a chorar. - Se acalma, o que vamos fazer será bem mais divertido. - Ela disse, com aquele brilho frio cintilando em seu olhar. - Pelo menos pra mim. - Murmurou.

Arte e destino

Até quase minha fase adulta, eu nunca tinha sido feliz. Nem sabia o que era a felicidade. Parece estranho, não é? Não se conhecesse minha vida. Eu fui criado pela minha avó, que sempre me amou mas nunca soube, digamos, pôr isso em prática. Eu sei que ela sempre quis o melhor pra mim e tal, mas não sabia mais como lidar com uma criança. Uma criança órfã. Meus pais morreram quando eu tinha dois meses, em um acidente de barco, afogados. Eu nem lembro deles, os vi apenas por fotografias. Minha avó teve que ser cuidada por uma filha, irmã da minha mãe, por um tempo. Isso porque, logo após o acidente, ela não queria mais comer, tomar banho ou sair de casa. Muito menos cuidar de um bebê chorão, faminto e barulhento. Foi até aí que ela me contou. Eu só sei que continuou comigo e voltou a viver normalmente - ou o mais normal que sua realidade permitia. Cuidava de mim, me levava a escola, me buscava. Comparecia à reuniões e fazia tudo que tinha de ser feito. Mas não era minha mãe. Ela sabia disso, e eu também. Isso fazia diferença. Eu cresci sendo o "Filho da Avó" e sem receber muito amor, com apenas o necessário. O garoto das roupas engomadas, velhas. Mas não reclamo, sempre tive o que precisei. Quando cheguei na adolescência, meus objetivos eram simples e claros: sair da casa da minha avó e ser totalmente independente. Consegui isso com 17 anos, após ter ganho um concurso de arte. Ah, é. Sabia que tinha esquecido de alguma coisa. Eu desenho. Desde meus 6 anos, o papel e os lápis de cor são meus melhores amigos. Nada me deixa mais satisfeito do que rabiscar durante horas e ver o resultado - mesmo que não me agrade. Não me pergunte se isso é dom ou habilidade adquirida, eu não sei responder. O que eu sei é que a arte - o desenho, a pintura - faz parte de mim, está entranhada em meu ser, na minha essência. Talvez os jurados - ou seja lá o nome que têm as pessoas que analisaram os desenhos e escolheram o meu como o melhor são chamadas - tenham visto isso. A arte, a emoção, impregnadas no meu trabalho. Não apenas rabiscos precisos e bem definidos formando uma figura. Enfim, o fato é que me chamaram. Eu ganhei. E com dificuldade consegui o consentimento de minha avó - que já estava bem idosa -, para ir à capital e começar a estudar arte no mais prestigiado centro de arte do país. Sem pagar absolutamente nada, com todas as despesas pagas. De início, me senti muito deslocado naquele lugar. Pessoas ricas compartilhando suas experiências pela Europa, falando sobre o carro novo do pai, o seu carro novo. Estava prestes a voltar para o interior, de volta com minha avó, que se encontrava bem debilitada e vivia agora com a tia que anteriormente tinha cuidado dela.  Teria feito isso, não fosse pelo amizade que acabou florescendo entre mim e outro garoto da minha idade que também se sentia deslocado. Não por questões econômicas, longe disso. Ele era até mas rico que o resto dos nossos colegas. Mas se sentia tão desconfortável com tanto dinheiro e pressão vindos de seu pai, que o que mais queria era ser como eu. Nós nos entendemos muito bem, e viramos melhores amigos. Seguimos juntos na faculdade de Artes até o fim, um dando suporte ao outro, até que nossos caminhos se separaram. Ele foi trabalhar na área de design e comunicação visual da empresa de seu pai. E eu… bom, mais uma vez o destino me presenteou. Fui chamado, depois de um estágio, para trabalhar em Paris. A proposta era: Pintar quadros, ilustrar livros e ganhar muito dinheiro com isso. Eu aceitei. Dei adeus à minha vida aqui, à minha avó, ao meu tão querido amigo, e parti. Hoje tenho cinqüenta anos e sou dono do meu estúdio de arte aqui, em Paris. Sou satisfeito pessoal e profissionalmente. Eu agradeço muito a minha avó - que não mais está entre nós -, por ter feito o que fez e formado quem eu sou, e ao meu querido amigo, que atualmente é dono da empresa que anteriormente pertencera à seu pai, por ter me ajudado nos momentos tensos e enfrentado comigo algumas das peripécias da vida. E digo, com toda certeza, que tudo valeu a pena.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Você merece

- Eu te avisei, não avisei? Você que não me deu ouvidos. - Disse a mulher, morena e esguia, com um meio sorriso no rosto. Visivelmente se divertindo com a situação.

Estavam em um aposento mal iluminado, úmido e sujo. A mulher estava em pé, olhando de cima para o homem. Ele tremia, querendo encará-la mas com medo do que veria em seu olhar.  Estava ajoelhado, caído naquela imundície. Criou coragem e levantou a cabeça, mirando aqueles zombeteiros olhos castanhos.

- O que quer de mim? Já disse que aquilo que aconteceu foi sem querer! Eu não tive a intenção! - Gritou, exausto, o homem. Não sabia mais o que fazer. Logo preferiria a morte a ter que aguentar mais daquele suplício.

Para sua surpresa, a mulher sorriu. Deu uma olhada para ele, de cima a baixo, encarando-o nos olhos, como se o desafiasse, e logo virou-se de costas e começou a caminhar em direção ao fundo do lugar, ocultando-se nas sombras. O homem desviou o olhar daquela escuridão, incomodado, mas logo os olhos se tornaram secundários. Os ouvidos é que foram invadidos com uma risada fria e longa, sem vida, mas que transparecia toda a diversão e satisfação que a mulher estava sentindo ali.

Ela parou de rir. Com seu sorriso satisfeito se espalhando mais uma vez pelo rosto, foi na direção do homem que, diga-se de passagem, estava preso à parede por uma algema ligada à uma grade com barras de ferro logo atrás. Caminhando devagar e muito tranqüilamente, ela passou por uma janela que a iluminou com a luz amarelada da rua, e foi possível enxergar claramente seu rosto.

Ela poderia ser descrita como 'linda'; caberia perfeitamente um 'estonteante' em sua descrição. Caberia. Futuro imperfeito. Seu rosto, sua movimentação - ela, por inteiro -, transmitiam uma frieza absoluta, um desprezo no olhar. Facilmente perceptível o quão cruel era aquela mulher.

O homem se mexeu desconfortável, sentindo-se assustado e totalmente vulnerável. A mulher estava muito próxima, e segurava alguma coisa. Com um suspiro, ela se abaixou, ficando com os olhos na altura dos dele. Passou a mão esquerda no rosto daquele indefeso, angelicalmente maligna - malignamente angelical. O homem sacudiu a cabeça para que ela parasse. A mulher, então, tornou-se séria. O sorriso cruel desapareceu, permanecendo apenas a crueldade simples e bruta.

- Vamos brincar um pouquinho. - Sussurrou ela, mordendo o lábio inferior. Estava ansiosa para começar.

- Do que você tá falando? Já não me torturou o suficiente aqui sem comida e água, preso nesse lugar imundo?! - Gritou o coitado, quase sem forças para mais nada além de objetar: estava faminto, sedento, exausto e preocupado com sua família. Vislumbrou rapidamente o rostinho de sua filha mais nova chorando, e então retornou a realidade vendo-a com algo na mão direita. Algo com aspecto pontiagudo e perigoso. Ficou trêmulo.

- Tortura? Que horror!  - disse ela, num tom falsamente ultrajado. - Ninguém vai te torturar aqui. Vamos apenas nos divertir um pouco. - Ela falou, com o característico sorriso reaparecendo em seu belo - e maligno - rosto.

Ela levantou devagar a mão direita e, como quem mostra um objeto recém comprado, girou na mão um alicate. Grande e possivelmente letal nas mãos erradas. O homem tentava se controlar, mas com essa nova visão e a perspectiva do que poderia ser feito com a ferramenta, voltou a tremer e a suar frio. Com grande esforço, conseguiu falar sem gaguejar.

- Vai me matar, é? Faça isso logo, então! Só me poupe dessa tortura! - Gritou ele, despejando seu pânico todo de uma vez e fazendo a mulher dar uma gargalhada típica de quem está se divertindo muito.

- Não, papai. Não vou te matar. Você vai preferir a morte, sim, mas isso acontecerá por conta própria. Você sabe… os seres humanos precisam de água e comida. - Disse ela, olhando para o alicate como quem analisa um troféu recém ganho. A mulher ergueu os olhos para ele e falou claramente. - Vamos começar logo, estou ansiosa.

- O que você vai fazer comigo…? - Murmurou o homem, sem conseguir se conter e gaguejando nas últimas palavras e deixando a frase morrer.

- Lembra de como eu gostava de brincar de manicure? - perguntou ela, calmamente. - Então,  eu andei treinando. Quero te mostrar como melhorei. - Seu rosto estava se tornando mais - se é que isso era possível - cruel, e ela olhava séria para seu pai, perfurando-o com os olhos. - Brinca comigo, papai.

Antes que ele conseguisse pensar em uma maneira para reagir ou algo para dizer, a bela e maligna mulher - sua filha - puxou sua mão direita para si.

- O que… - Ele começou a dizer. Não terminou.

A dor que sentiu ultrapassou todas que já tinha sentido. Ele não existia, nada existia. Apenas a dor. A dor que subia pelos seu dedos e penetrava em seu corpo. Não saberia dizer, posteriormente, se gritou ou não. Se chorou, tremeu, se contorceu ou apenas ficou em estado de choque, parado. Não saberia, também, precisar quanto tempo durou o suplício, se apenas um minuto ou a eternidade. Ele estava perdendo a consciência. Queria morrer, apenas isso. Qualquer coisa menos a dor. Ela o estava sugando para a escuridão, para o negrume total. Ou a escuridão estava preenchendo-o. Então, ele perdeu a consciência.

- Acorda. - Disse uma voz feminina, aguda e fria. Era a mulher. A cruel, a maligna.  Quando ele abriu os olhos, ela sorriu de satisfação. - Ora, ora, papai. Dê uma olhadinha nas suas mãos. O que achou do meu trabalho?

Então, ele baixou os olhos, confuso, atordoado pela dor. Ali na sua frente estavam seus dedos. Mas agora ele entendia o porquê de tanta dor: sua amada filha tinha removido todas suas unhas com o alicate, sem deixar nenhum resquício. Apenas dor, sangue, carne e pele. Os dedos estavam inchados, feios, irreconhecíveis. O homem queria dar um grito de nojo, dor e medo, mas não conseguiu. Ficou em silêncio observando seus horríveis dedos.

Logo, a mulher se levantou. Ele viu quando chutou e pisoteou suas unhas no chão, avermelhadas e mortas. Não conseguia acreditar que a menina que criou com tanto amor, dedicação e esforço se tornara o monstro que agora torturava o próprio pai. Como se transbordasse, ele engasgou. Precisava falar isso pra ela, mas não conseguia!

Então, antes que pudesse organizar seu pensamento e formular a frase, ela falou, calma e satisfeita.

- Como fui, papai? Acha que melhorei meus dotes de manicure? - Falou ela, obviamente sentindo-se muito bem.

- Como você… - Ele não conseguiu continuar, gaguejou. Logo sua raiva sobrepujou sua incredulidade. - Sua monstra! - ele degritou. Arfava com um velho, mesmo não sendo. O cansaço e o esgotamento - físico e mental - o dominavam, e ele não sabia o que aconteceria a seguir.

- Monstra? Papai, não foi assim que o senhor me ensinou a tratar as pessoas. - Respondeu ela, como se estivesse assustada com a reação do pai. - Agora, convenhamos. Você mereceu essa brincadeirinha.

- Mereci? Não! Eu já disse que aquilo tudo foi um mal entendido. Sem querer! - Gritou ele, quase histérico.

- Sem querer? Pois eu não acredito! Você vai se arrepender bastante do que fez, papai. Vai ser bom. Só é uma pena que não vá sair daqui. - Divertiu-se ela, passando a mão pelos longos cabelos negros.

A mulher se virou ágil e rapidamente, de costas para seu pai, e foi novamente para  o canto escuro do aposento, onde, supôs o homem, tivesse um armário ou algo do tipo. Ela cantarolava alguma música lenta enquanto, aparentemente, procurava por algo. Então, após uma interjeição de satisfação, o homem ouviu o barulho de uma cadeira arrastando e ela se levantou. Caminhou até ele, ainda cantarolando.

- Encontrei, papai. Meu isqueiro. - Murmurou a mulher, abrindo o pequeno objeto. Se abaixou novamente e acendeu-o. A chama tremulante iluminou fantasmagoricamente seu rosto e refletiu em seus olhos, sem diminuir a frieza de seu olhar. Ela tornou a sorrir novamente. - Vamos esquentar as coisas?

domingo, 19 de dezembro de 2010

Não chore.

Eu te amo. Eu sei que nada disso vai adiantar ou melhorar a sua vida. Sei que vai sofrer. Mas é preciso, eu não agüento mais. Cansei de sofrer. Por amor, por ódio, por indiferença. Cansei. Eu quero que saiba que sempre vou te amar; que sempre vou estar ao seu lado, mesmo que não me veja. A situação chegou num ponto crítico demais. Espero do fundo do meu coração que você encontre outra pessoa que te faça feliz, que te mostre - mais uma vez - o amor. Faça isso por mim: ame mais uma vez. Ame com a alma, ame por inteiro. Faça essa pessoa sentir-se como eu um dia me senti ao seu lado: pleno, maravilhado, feliz. A culpa não é sua por isso ter que acontecer. Aliás, não existe culpa. O nosso amor não é errado. O amor não é errado. Eu te amo, você me ama. Mas é assim que tem que acontecer. Jamais me esqueça. Jamais esqueça da nossa história.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Duplicidade

Muito barulho. Zumbidos. Gritos.

Era apenas o que os ouvidos do adolescente conseguiam captar. A sua volta, vultos indistintos entravam e saíam de seu campo de visão. Ele apertava os olhos tentando enxergar algo além daquilo que dominava sua visão, mas tinha uma vaga consciência de que seus esforços eram, pelo menos agora, inúteis. O garoto não sabia onde estava ou o que estava acontecendo ao seu redor, mas sentia, de alguma maneira entorpecida, mãos o tocando e braços tentando o erguer do que parecia ser o chão. Com um puxão forte pelas axilas, sentiu-se preso, segurado por alguém. Logo, os vultos sumiram e sobreveio a escuridão.

Ele abriu os olhos e sentou-se de chofre naquela cama aparentemente de uma clínica ou hospital. Vislumbrou o local: poucos móveis, um quadro de flores na parede e uma escrivaninha com um jarro de água pela metade. Tudo branco e incrivelmente limpo. Além das dores pelo corpo todo, percebeu algo mais. Na cama ao lado, estava alguém que ele nunca imaginou ver - ou sequer existir. 

Um garoto estava deitado na cama ao lado. Um garoto absolutamente idêntico a ele. Peter, como era seu nome, via seu rosto refletido ali, a poucos metros de distância, quase ao alcance de sua mão. Seus olhos passaram pelo corpo do garoto - o seu corpo. O cabelo do outro Peter, como automaticamente nomeou a figura, tinha a cor e o corte iguais ao seu: um castanho dourado com cachos desenhados ao redor da cabeça. Os olhos do outro estavam placidamente fechados, mas Peter não duvidava que fossem cor de mel, como os seus, que agora expressavam incredulidade. O rosto era assustadoramente igual, como se ver em um espelho. Se se deparasse com uma foto do outro garoto, diria "esse sou eu".

Quando ele se sentou na cama, sentindo sua perna doer e tentando enxergar o garoto mais de perto, a cama rangeu. O outro, como num filme em câmera lenta, abriu os olhos e focalizou o já assustado Peter, com uma expressão enigmática no rosto. Ele sentou-se na cama, apoiando os pés no chão, e calmamente pôs-se a olhar seu debilitado irmão gêmeo.