domingo, 15 de junho de 2014

Sólido(ão)

Solidão é uma palavra que combina com outros aumentativos. Assim como “grandão”, “amigão” e uma infinidade de outros exemplos, solidão tem essa força em sua entonação final. Ão. Ão. Ão. Tem vontade, tem energia. Tem tamanho.

Palavras assim derivam daquelas que possuem uma dimensão padrão (de novo: ão, ão), como “grande” e “amigo”. E com a solidão não poderia ser diferente – a palavra que denomina seu tamanho normal combina perfeitamente com o significado.

Sólido. Pode parecer paradoxal a palavra que origina o aumentativo “solidão” significar o oposto de abstrato. Mas não. Na verdade, faz todo sentido.

Segundo o dicionário, algo sólido é, entre outras coisas, algo forte e incontestável. Algo que, mesmo com adversidades e interferências externas, mantém-se com a mesma forma – com as superfícies que a delimitam sem transformações ou mudanças. É algo que não sofre interferências. Que não se deixa “ser outro”.

E a solidão? Não podemos esquecer dela. Tudo se encaixa quando percebemos essa etimologia oculta. Solid-ão é tudo isso dito no parágrafo anterior com uma intensidade ainda maior.

É quando a não-interferência é demais. Quando a impossibilidade de ser modificado por forças externas é exagerada. Quando toda essa inacessibilidade do objeto – ou da pessoa em questão – ultrapassa os limites.

Estar sozinho é não ser modificado, polido ou mesmo tocado. Estar sozinho é permanecer da mesma forma. Estar sozinho é estar incapaz de aceitar a possibilidade de ser outro – de ser melhor. De mudar de forma e evoluir.

E aí, nesse ponto, alguém ‘sólido’ passa a ser alguém ‘solidão’.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Prólogo

Hoje eu almocei lendo.

Lendo os teus olhos focados no prato à frente. Nos teus olhos que, em momentos do tamanho da eternidade, cruzavam com os meus.

Hoje eu almocei lendo.

Lendo os teus lábios úmidos e inquietos, delicadamente engordurados por causa dos alimentos que levava do prato à boca e mastigava com certa displicência.

Hoje eu almocei lendo.

Lendo os movimentos dos teus braços, as idas e vindas do pescoço e os reposicionamentos constantes das pernas por baixo da mesa.

Até que o livro se fechou. Você levantou. Pegou suas coisas e me deixou procurando pelos próximos capítulos.

 (Hoje eu almocei lendo.

E percebi que você desempenha muito bem o papel de protagonista).

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Des-consciente (parte 3)

Um zunido estranho está me incomodando. Tão rápido quanto perdi a consciência – ou me perdi, não sei –, eu a recuperei. A escuridão que antes tomava conta de minha visão e parecia invadir meu ser agora não mais existe. Parece que estou deitado. Olho pro teto. Mas até algum tempo atrás eu não era apenas uma consciência sem forma?

Aparentemente, aquele flash não apenas me levou a outro lugar, mas também me devolveu o corpo ao qual eu estava acostumado durante todos esses meus anos de vida. Não sei como e muito menos o porquê de tudo isso. Aliás, eu não estou entendendo nada do que está acontecendo. Absolutamente nada. Só sei que consigo sentir meus pés, meus braços, minhas mãos e todos os outros membros. E consigo sentir, de fato, que estou deitado.

Acima de mim, apenas um teto muito alto e branco. Olho para os lados e só vejo branco. Paredes brancas. Chão branco.  Será que também estou branco?! Por sorte, não estou. E ao me olhar, percebo que estou nu. Olho ao redor, mas não há roupa alguma para vestir. Porém, como também não parece haver ninguém por perto, não me preocupo com isso.

Então, me sento. Este móvel onde estou parece uma daquelas camas de hospital – metálicas e com uma aparência etérea. Me espreguiço, como se estivesse acordando de uma longa e confortável noite de sono. Mas acredito que não tenha dormido – e, se dormi, não foi nem um pouco confortável.

Hora de colocar os pés no chão. E, surpresa!, ele não está gelado como eu havia pensado. É até bom saber que finalmente estou reconectado à Terra. Olho novamente ao meu redor e não vejo absolutamente nada. Apenas um longo e amplo corredor com teto, chão e paredes brancas. Pelo menos, penso eu, não estou numa sala trancado entre quatro paredes.

Decido seguir por aquele longo corredor. Ele parece bem comprido, tanto que não consigo enxergar seu fim, mas em algum ponto ele precisa terminar. E com esse pensamento em mente, começo a caminhar.

Desnudo e descalço, mas consciente, passo após passo vou pensando nas coisas que me aconteceram e nas possíveis razões de terem acontecido, mas nada faz sentido. Nada parece ser a resposta correta pra esse grande enigma em que me encontro. Penso em meus pais e no quanto devem estar preocupados comigo. Penso no meu relacionamento que estava começando a dar certo. Penso no meu trabalho – meu chefe deve estar puto comigo por ter faltado durante todo esse tempo!

Mas quanto tempo? Não faço ideia. Não consigo ter nenhuma noção de quanto tempo decorreu desde o momento em que abri meus olhos e estava naquela sala escura, com aquela coisa se mexendo e vindo na minha direção, até agora. Pode ter sido apenas algumas horas ou pode, o que me preocupa, ter sido mais do que semanas.

Continuo caminhando. Sinto que mais algumas horas já se passaram, mas nada mudou. O branco está absolutamente em todos os lugares, não importa para onde eu olhe. Nem sombras existem, já que a claridade é total. E isso é pior que a escuridão completa, acredite. 

Sem perder as esperanças, continuo corredor adentro, até que, ao meu lado direito, uma porta – que eu não havia visto até então – se abre. E eu saio de lá, igualmente nu. Sim. Eu. Outro eu. A única diferença entre nós dois é que ele parece estar muito bem situado naquele ambiente e está segurando uma bandeja prateada com aquelas tampas redondas e pomposas – enquanto eu, provavelmente, estou com a expressão perdida e sem nada em mãos.

Ao me ver, o Outro Eu sorri de uma forma que me deixa muito perturbado, como se soubesse de coisas que não sei e estivesse satisfeito com isso. Ele então segura a tampa da bandeja com a outra mão e a levanta, revelando o que traz consigo e oferecendo a mim.

Um telefone normal. Nada além de um telefone comum, que qualquer pessoa tem em casa. Casa. Será que ele – eu –  está me dando a oportunidade de ligar pra casa e tranquilizar meus pais? Não. Não parece ser isso. Sempre fui de levar em conta minha intuição e poucas vezes estive errado. A razão desse telefone estar sendo oferecido a mim é outra.

Me ocorre de perguntar algo ao meu outro eu, mas de alguma forma sei que ele não será útil. Pode parecer imbecil da minha parte, visto que ele saiu de uma porta com algo para mim e carrega no rosto uma expressão confiante. Mas... não.

Talvez a resposta esteja atrás daquela porta. Quando estou prestes a dar meu primeiro passo para invadi-la, o telefone toca. Eu olho para o Outro Eu, e ele apenas me olha de volta. Percebo que a ligação é pra mim. Pego o telefone, coloco-o sobre o ouvido.

E digo: “Alô?”

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Des-consciente (parte 2)

Me sinto preenchido. Preenchido de uma forma estranha e diferente, como eu jamais havia sentido antes. Nada parecido com um orgasmo. Ou com aquele tapa na cara de alguém que te irrita demais. É algo muito além disso tudo.

Mas, ao mesmo tempo, é estranho. No momento em que essa coisa – que eu continuo sem saber o que exatamente é – retorna a mim, a sala escura torna-se mais clara. Lenta e gradualmente, como uma gota quando toca a superfície de um lago calmo. E eu sou essa gota. A partir de mim, a sala começa a ser invadida por uma luz amarelada e quente.

Mas eu continuo com muito frio, e me sinto deslocado dessa sala. Ah, sim, agora consigo ver onde me encontro, e não é nada além da minha sala de estar. Até a televisão estragada, que empoeirava em cima de um móvel antigo, estava ligada.

Mas... ela está funcionando corretamente. Sintonizada em algum canal passando imagens aleatórias de um homem jovem e sorridente, cuja fisionomia não me é estranha. Parece meu pai. Acho que... não. Não pode ser. Sou eu. Mas não lembro de ter vivido as coisas que estão passando naquela velha televisão. Não lembro de ter surfado com um filho – que sequer existe. Não lembro de ter casado num belo campo e, mais assustador, com uma bela mulher – que sequer conheço. 

Mas está tudo acontecendo. Ou melhor. Tudo aconteceu e foi gravado, tanto é que estou assistindo à minha própria vida. Será que perdi a memória? Mas então o que estou fazendo aqui? Não, acho que não foi isso. Essas coisas não foram vividas por mim, mesmo que essa televisão velha da minha mãe tente me desmentir. Eu sinto que não vivi. Sinto que ela está tentando me dizer alguma coisa com essas cenas todas.

Mas eu (ainda) não sei de nada. De repente, a televisão desliga. E, com ela, as outras luzes da sala. Sinto mais frio ainda. E me dou conta novamente de que meu corpo não está como sempre foi. Na verdade, com a súbita escuridão que domina aquela sala antes iluminada, me sinto como uma sombra – sem forma, mas pensante.

Mas. Mas. Mas. Mas. Mas. São tantos ‘mas’ que não sei mais o que pensar. Minha vida não-vivida, mas gravada. Minha atual existência aparentemente incorpórea, mas consciente. Essa ‘coisa’ que está em mim, mas não sei o que é.

Ainda parado naquele ambiente totalmente escuro, sem ter para onde olhar ou mesmo como me mexer, eu espero. Espero por alguns minutos, que logo se transformam em horas, que logo se transformam em dias. Ou será que não passou tempo algum? Difícil dizer. Impossível, na verdade.

Até que um flash ilumina aquela sala. Um flash súbito e cegante, com menos de um segundo de duração. Consegui vislumbrar apenas paredes muito brancas e aparentemente sem fim. Antes de conseguir digerir essa informação, um barulho agudo e ensurdecedor racha meu crânio, mesmo que eu aparentemente não tenha um. E o que resta de mim perde a consciência. E, se eu sou apenas consciência, me perco. 

terça-feira, 30 de julho de 2013

Des-consciente (parte 1)

Abro os olhos. Não enxergo nada. Fico em dúvida se estão realmente abertos. Mas... eles estão – percebo isso porque a escuridão desaparece lentamente e meus olhos agora conseguem discernir formas difusas à frente.

Estranho. Alguma coisa parece estar se mexendo. E mais estranho ainda: parece estar vindo na minha direção. Não sei se estou sentado ou em pé. Nem mesmo sei se meus pés estão no chão. Se eu tenho pés. A sensação que tenho é a de ser apenas uma consciência sem forma parada no meio daquela confusa sala escura.

Aliás, confuso estou eu. Não me restam dúvidas de que algo se aproxima. Mas eu simplesmente não faço ideia do que possa ser. Penso em me mover, mas realmente apenas ‘penso’, porque nada acontece quando tento transferir este comando para minhas pernas. (Pernas?)

A escuridão é quase total. E a ‘coisa’ – cujos contornos são difusos – está muito próxima. Se eu esticasse meu braço, poderia tocá-la. O problema é: não consigo fazer isso. E o curioso é que mesmo tão perto não consigo ter ideia do que seja. E então...

Ela me toca. Não. Ela me preenche. Não. Ela entra em mim. Não. Ela se torna eu. Não. Eu me torno ela. Não. Nós apenas nos reencontramos.

Sim.

domingo, 5 de maio de 2013

Tumulto

No centro daquela movimentada cidade, todos que passavam tinham pelo menos uma coisa em comum: a pressa. Passos ligeiros, pensamentos distantes e olhos desfocados faziam das pessoas não mais do que robôs tentando chegar aos seus objetivos – sejam eles o trabalho, escola, faculdade ou qualquer outro tipo de compromisso. No meio desse emaranhado de gente tentando caminhar na apinhada e suja calçada, um menino franzino tentava a sorte. – Moço, o senhor pode me ajudar? – A criança sorriu, tímida. Seus olhos possuíam uma luz fraca, do tipo que já cansou de brilhar devido às peças pregadas pela vida.

– Ah, tô sem nada de dinheiro aqui, rapaz.  – Disse o apressado homem, que já há algum tempo não parava para apreciar o mundo e as maravilhas que acontecem nele a todo momento.

– Oi? Mas... eu não quero dinheiro! – E seu sorriso vacilou. Era isso que todos diziam antes de sumirem no mar de gente novamente. Mas, dessa vez, o garoto estava decidido a ter o que tanto queria. Correu atrás do homem, cutucando-o nas costas. Ele se virou, e dessa vez parecia irritado.

– Onde tá sua mãe, hein? Ela deveria estar trabalhando em vez de te fazer pedir esmola aqui no centro!

– Eu não quero o seu dinheiro, moço. Tenho o que comer, apesar de não ser muito e nem de longe se parecer com aquilo que você come. – E, de uma vez por todas, percebendo que o homem parecia curioso, o menino pediu. – O que eu quero, de verdade, é um abraço apertado. Minha mãe trabalha todo dia pra poder nos sustentar, e não sobra tempo pra... essas coisas. E eu sinto falta.

E antes que pudesse continuar falando, o antes apressado homem, vestido com uma camisa social e calça jeans de uma marca cara, abaixou-se e envolveu o garoto com seus braços. Sentira uma imensa sinceridade saindo daquela boca, assim como uma carência por afeto muito maior do que seria aconselhável.

O garoto não precisou falar mais nada. Aquele abraço era tudo que precisava. E exatamente da maneira que precisava. Depois de alguns instantes nesse ato que pareceu eterno, o garoto pensou que seria educado agradecer. Mas, antes que pudesse, as pessoas começaram a empurrar de todos os lados, e o homem e o rapaz foram separados. Cada um pro seu lado.

Um, completamente extasiado com a experiência. Primeira vez em muito tempo que percebeu as coisas ao seu redor, que deu atenção à algo que não sua falta de tempo ou colegas de trabalho. Ao abraçar o garoto, sentiu que um grande peso saia de seus ombros e uma enorme sombra desabrigava-se de sua visão. Sentia-se vivo novamente. Orgânico. Capaz de sentir e transmitir emoções.

O outro obtivera tudo que queria. Um grande e sincero abraço que dispensou qualquer palavra subsequente, pois a emoção alojara-se toda no espaço existente entre os braços entrelaçados: o peito. O coração. O garoto não sentia mais fome de carinho. Podia ir pra casa feliz e satisfeito. Tinha uma sensação esquisita também: que, de alguma forma, ajudara o homem. Libertara-o de si mesmo, das amarras que ele mesmo havia construído.

E isso deixava todo mundo mais feliz. Naquela cidade que nunca para, que tá sempre atrasada e que sequer tem tempo pra manifestações de carinho, a esperança havia sido novamente acesa.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Contraste

O homem anda ali, naquela escura ruela, revirando latas de lixo, expulsando ratos de onde ele espera que esteja a comida - os restos de um qualquer - que lhe dará sustentação para mais uma triste noite dormindo debaixo de jornais. A arte da sobrevivência.

Lá, não muito longe, uma senhora planeja a festa de dez anos de idade de seu gato gordo. Muitos convidados, um salão devidamente pomposo e decorado, um cardápio vasto para os animais de estimação das outras senhoras. Lindo, chique. Sem dúvida estará na coluna social do jornal.

Certo dia, esse mendigo, abandonado pela família e sem nenhum nível de instrução, passa por essa senhora, vinda de uma família abastada e viúva de um famoso empresário. Ambos se olham: ela com asco, superior e segurando sua bolsa com mais força que o normal. Ele, de maneira simples, com humildade e cansaço no olhar.

Engraçado.